segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Beco dos Barbeiros - Rio de Janeiro- RJ

Desde seu surgimento, a cidade do Rio de Janeiro convive com um crescimento urbano desordenado, que intensificou-se após a chegada da família real no início do século XIX e que culminou com a tentativa de modernização levada a cabo por Pereira Passos entre 1903 e 1906. Até então o centro do Rio era formado por ruelas sinuosas e insalubres, onde as "Cabeças de Porco" (cortiços) proliferavam, bem como as mazelas decorrentes da falta de higiene e saneamento básico.

Com a demolição dos casebres, o alargamento das ruas e a construção de grandes avenidas este cenário caótico mudou e fica até difícil imaginar como seriam as condições de vida naquela época. Entretanto, por incrível que pareça, nem a sanha do "bota abaixo" de Pereira Passos, nem a cobiça do mercado imobiliário conseguiram apagar completamente este passado e ainda é possível encontar resquícios do (des)ordenamento urbano do Brasil Colonial em pleno século XXI.

Um lugar para quem conhece


Todos os dias centenas de turistas e seus guias perambulam pela Praça XV, indo do Paço Imperial ao Arco do Teles ouvindo as mesmas histórias sobre fatos pitorescos da região. Alguns até param em frente ao curioso conjunto formado por dois imponentes templos católicos localizados na Av. Primeiro de Março, mas nenhum fica sabendo que ao lado de um deles encontra-se o famoso Beco dos Barbeiros!

São duas belas igrejas, sendo a que fica na esquina com a rua Sete de Setembro a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé e vizinha a ela, a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Na verdade as duas reverenciam a mesma santa e são fruto das disputas político-religiosas que ocorriam entre as ordens religiosas no período colonial.


Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, vista da rua Sete de Setembro.

Uma consequência não programada desta disputa foi justamente o surgimento do beco, uma vez que a Câmara reinvindicou o terreno que separava as duas igrejas como de servidão pública. Para resolver a questão, a Ordem Terceira cedeu outro terreno, que passou a fazer a ligação entre as ruas do Carmo e Direita (atual Primeiro de Março).

A canaleta central escoava as águas servidas.

Com o tempo, a viela passou a ser ocupada pelos profissionais da navalha, dai o nome de Beco dos Barbeiros. É preciso ressaltar que enquanto a elite era atendida em estabelecimentos comerciais, a grande maioria da população dispunha dos ambulantes que exerciam suas atividades em tendas ou simplesmente perambulavam pelos arredores em busca de vítimas, quer dizer, clientes.

Viela dá uma idéia de como era o Rio de Janeiro colonial.

Cabelo, barba e sangria


É preciso que se diga que o barbeiro do Brasil Colonial era muito diferente daqueles que conheçemos atualmente. Além de cabelo, barba e bigode os profissionais da época estavam autorizados a executar extração de dentes, pequenas cirurgias e, principalmente, sangrias - muito apreciadas na época para tratar quase todos os tipos de doença. Considerando a inexistência de anestesia e as condições de higiene do local é de se imaginar que ir a uma barbearia naqueles dias não devia ser algo muito agradável.

E por falar em higiene, o beco mantém uma característica muito interessante daquele período: a canaleta central. Como não havia canalização de esgoto, as ruas possuiam um rebaixamento no vão central justamente para escoar os detritos lançados pela população porta a fora. Isto inclui restos de comida, conteúdo dos urinóis, águas servidas e, no caso dos barbeiros, o material retirado de seus pacientes. Somente após a chegada de D. João VI as ruas passaram a receber calçamento e passeios revestidos com pedra, de modo a manter os passantes afastados da sujeira, o que foi considerado um avanço significativo em termos de urbanização.

Felizmente a situação hoje é bem diferente e o Beco dos Barbeiros é somente uma referência a um tempo que já passou. Aos poucos estas histórias vão sendo esquecidas e os passantes apressados nem imaginam o que já aconteceu por ali. Na verdade, muitos só conhecem sua localização por ser este o endereço do bem conhecido Bar Escondidinho, onde é servida a melhor costela no bafo do Rio de Janeiro.

Beco dos Barbeiros


Via pública, localizado entre a Av. Primeiro de Março e a Rua do Carmo.

Fonte:


LADEIRA, Leonardo. Antigos becos e vielas do Centro do Rio contam parte da história urbanística da cidade. Postado em 20 dez. 2010. Disponível em http://www.rioecultura.com.br/coluna_patrimonio/coluna_patrimonio.asp?patrim_cod=53. Acessado em 13 out. 2014.

PACINI, Paulo. O Beco dos Barbeiros. Postado em 04 jan. 2012. Disponível em http://www.semprerio.com/pt/home/item/8-o-beco-dos-barbeiros. Acessado em 13 out. 2014.