domingo, 26 de junho de 2016

Trilha Salcantay - 1º dia - dormindo aos pés da montanha - Soraypampa - Peru

Para os quéchuas, montanhas nevadas como Salcantay e Humantay eram consideradas entes vivos e divinos, dotados de poder sobre o ciclo da vida nas regiões sob sua influência. Por isso eram designadas cerimonialmente como Apus (Senhora) e a elas se prestavam homenagens e oferendas. E talvez, justamente por isso, este seja o local por onde se deva iniciar o caminho de quatro dias que conduz à Machu Picchu.

Nevado Humantay


Apus


Apu Salcantay é considerada a segunda montanha mais alta do Peru e é o ápice da Cordilheira de Vilcabamba, a qual pertence. Atinge 6.271m de altitude máxima e permanece coberta de neve o ano todo, sendo comum a observação de avalanches em suas encostas. Seu nome em quéchua significa Selvagem e se justifica por sua topografia íngreme e de difícil escalada. Em suas escarpas repousam os restos de vários alpinistas que intentaram desafiá-la e falharam. Tem como vizinho o Apu Humantay (Cabeça, em quéchua) e com ele forma o Abra Salcantay (passagem), à 4.650m acima do nível do mar.

Esta rota era muito utilizada nos tempos do Império Inca, como atestam algumas construções remanescentes ao longo da estrada e na própria montanha.  A bem da verdade a Trilha Salcantay foi criada como sendo um caminho alternativo a já saturada Trilha Inca Clássica e procura reproduzir o que seria uma jornada rumo à Machu Picchu a pé. Se constitui num atrativo turístico de grande apelo para os amantes da natureza e do turismo de aventura e é fruto do esforço da iniciativa privada e dos órgãos responsáveis pelo setor do turismo no Peru para atrair investimentos e ajudar a desenvolver esta parte do País.

Um convite à aventura
Seu traçado permite ao aventureiro percorrer diferentes paisagens que vão dos montes nevados da Cordilheira de Vilcabamba (nos Andes Peruanos) à floresta fechada no entorno de Machu Picchu, passando por terras áridas, caminhos de pedra, vales férteis e vilarejos típicos. É algo que exige bom preparo físico e mental, bem como equipamentos adequados, mas que sem dúvida deve constar na agenda daqueles que amam a natureza e a aventura.

Nesta série de posts estaremos relatando o dia a dia desta viagem de quatro dias, partindo de Cusco e chegando à Águas Calientes. Além de informações úteis para aqueles que desejam viver esta aventura estaremos trazendo impressões pessoais e imagens que, esperamos, possam contribuir para uma melhor compreensão do significado desta jornada. Vamos ao relato:

De Cusco a Mollepata


São 05:25 da manhã e a portaria do hotel avisa que o pessoal da agência responsável pela trilha me aguarda na recepção para dar início ao deslocamento até Mollepata.

É cedo, mas a movimentação começou bem antes, por volta das 03:30. Sempre que venho à Cusco durmo bem, mas acordo de madrugada e não consigo mais conciliar o sono. Desta vez até foi bom, pois com isso tive tempo de sobra para tomar as providências de última hora - como colocar as malas no depósito do hotel e enviar uma última mensagem para a família. A próxima, só quatro dias depois, ao chegar em Águas Calientes!

Na calçada sou apresentado a Alejandro, o cozinheiro, e Christian, o guia. Embarcamos na van, que parte rápida e logo deixa a paisagem urbana para trás. É junho, céu limpo e pela janela vejo os campos cobertos de geada. Ato contínuo lembro das madrugadas no interior do Rio Grande do Sul, onde cresci, e me arrepio só de imaginar o frio que deve estar fazendo por aquelas cercanias. Será que o casaco que está na mochila será o suficiente?

Chegamos na praça central de Mollepata por volta das 07:30, dentro do tempo previsto. Christian me chama para irmos comer alguma coisa no Café Don Júlio, que fica do outro lado da rua, no andar de cima de uma velha casa. O estado precário da escada de madeira que utilizamos para subir anuncia o quê esperar do estabelecimento. Segundo o guia, este é o ponto de encontro preferido dos treckers por ser o mais "apresentável" da cidade!!

Café Don Julio, no centro de Mollepata

Solicitei o Café Americano, o mais completo, que saiu por S/. 20,00 (na época, 01 Real equivalia a aproximadamente 0,86 Soles). O curioso é que trouxeram uma jarrinha com café frio. Por algum tempo fiquei olhando sem entender, até que chegou o restante da refeição e o Señor Júlio - deve ter notado minha cara de dúvida - me explicou que aquele café era para ser misturado à água quente da garrafa térmica que ele trazia naquele momento. Ah bom!! Se é assim, sim.

Não há muito o quê ver ou fazer em Mollepata e, tendo concluído o desjejum, decidimos seguir para o ponto inicial da trilha. Após uma hora sacolejante por uma estrada de chão batido avistamos os grupos de arrieiros com seus cavalos. Aqui nos reunimos com o quarto membro, do grupo, José, responsável pela condução de um cavalo e de uma mula utilizados para transportar nossas bagagens e equipamentos durante os quatro dias de caminhada.

O primeiro passo


Contrariando os prognósticos iniciais a temperatura estava bastante agradável e o sol a pleno vapor. Enquanto a equipe ultimava os preparativos aproveitei para aplicar uma boa camada de protetor solar, revisar o conteúdo da mochila e, claro, tirar algumas fotos. Ao longe o monte Humantay se destacava na paisagem, parecendo querer indicar o caminho a ser seguido. Neste ponto estávamos a uma altitude de 2.900 m.

Toda jornada começa com um primeiro passo e o nosso foi  às 09:09 em ponto! Partimos para uma marcha de aproximadamente 10 km até Soraypampa (3.950 m), onde está localizado o acampamento base há poucos quilômetros do Salcantay. No início enfrentamos um aclive acentuado, cuja dificuldade em vencê-lo reside mais na falta de oxigênio devido a altitude do que ao aclive em si. Posteriormente o caminho é mais plano, com ondulações menos acentuadas e fáceis de ultrapassar.

Trilha Salcantay, com o nevado Humantay ao fundo.

Durante boa parte do tempo acompanhamos o curso de uma calha por onde escoava a água oriunda das montanhas e cujo destino era a irrigação das plantações do vale que se estendia abaixo de nossa posição. Em parte a origem desta água está ligada ao degelo da neve que se acumula nos pontos mais elevados, mas também se deve à condensação da umidade nas encostas rochosas graças a presença de um líquen que aí se desenvolve. É interessante lembrar que o conceito de divindade atribuído às montanhas pelos quéchuas tem raízes neste fenômeno natural, uma vez que a água era, e continua sendo, essencial para a manutenção da vida e as montanhas eram fontes geradoras e inesgotáveis deste líquido tão precioso.

Nesta etapa a paisagem é composta basicamente por montanhas, algumas com picos nevados, e o caminho é muito tranquilo. Às 13:15 atingimos o acampamento base em Soraypampa e fomos almoçar.

A laguna


Conforme havia combinado com Christian, às 15:00 saímos para uma caminhada até a laguna formada pelo degelo do Humantay. O percurso consistia em subir por uma encosta de aproximadamente três quilômetros, mas após uma hora de caminhada cheguei a conclusão que meu preparo físico não estava para tanto. Apesar de não sentir os efeitos do soroche (mal das alturas), as subidas eram particularmente penosas - principalmente após ultrapassar os 4.000m de altitude. Por isso, decidi sentar na relva e avisei ao guia que iria ficar por ali mesmo, descansando e contemplando a paisagem.

A vista da encosta
Christian ainda insistiu um pouco, argumentando que faltava apenas um quilômetro. Virei a cabeça na direção indicada por ele e vi uma escarpa rochosa com pessoas minúsculas subindo entre as pedras. O entardecer estava magnífico, o silêncio era quase total. Se forçasse a marcha conseguiria chegar à laguna para ficar alguns momentos e depois descer novamente. A julgar pelos grupos que passavam por nós, lá em cima devia estar apinhado de gente. Ponderei que preferia ficar por ali mesmo, sentindo as vibrações de Pachamama e vivendo o momento.

A laguna é certamente linda e vale a pena ser visitada, entretanto tenho certeza que tomei a decisão certa. Christian e eu conversamos por um bom tempo, tirei belas fotos e, ao descer, me sentia completamente renovado.

Retornamos ao acampamento por volta das 17:30, onde nos aguardavam para el té da tarde, uma refeição ligeira composta por café (solúvel), chocolate, chás, biscoito e pipoca!!

Frio de rachar


O cair da noite trouxe consigo um frio intenso e uma escuridão que há tempos não via. Em Soraypampa não há abastecimento regular de energia, por isso apenas algumas áreas de uso comum do acampamento contam com iluminação fornecida por um gerador - diga-se de passagem que os banheiros não contam com este luxo.

Também não há muito o quê fazer por ali. Assim, depois de jantar e acertar os detalhes da caminhada do dia seguinte, resolvi me recolher a minha carpa (barraca) e descansar.

A carpa (barraca) no acampamento base de Soraypampa

Acostumado às noites sem estrelas do Rio de Janeiro confesso que foi com um misto de surpresa e nostalgia que, ao sair do abrigo onde estávamos,  avistei a via-láctea brilhando no céu. Por algum tempo esqueci o cansaço, a altitude, a falta de oxigênio e até mesmo do lugar aonde estava. A visão daquele céu tão brilhante me trouxe a lembrança da infância no interior gaúcho, quando tudo era simples e a natureza estava assim como naquele instante, ao alcance da mão. Aos poucos o ar gelado me trouxe de volta à realidade e decidi dar por encerrado o dia.

Cai a tarde em Soraypampa

Estendi o saco de dormir e vesti a roupa térmica comprada especialmente para a ocasião. Mal sabia eu que passar aquela noite ali seria uma aventura a parte!

(continua no próximo post: Trilha Salcantay - 2º dia - através da montanha)

Veja os álbuns com as fotos de cada dia de trilha em nossa página no Facebook:
Trilha Salkantay - 1º dia de Mollepata a Soraypampa;
Trilha Salkantay - 2º dia de Soraypampa a Collpapampa;
Trilha Salkantay - 3º dia de Collpapampa a Santa Teresa;
Trilha Salkantay - 4º dia - Tirolesa e caminhada desde a hidrelétrica até Águas Calientes;
Trilha Salkantay - 5º dia - Visita à Machu Picchu.

Seguindo o modelo da viagem anterior, quando realizamos a Trilha Inca, iremos alternando entre fotos e relatos de modo a transmitir o mais fielmente possível as emoções desta jornada.

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