sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Trilha Salcantay - 4º dia - seguindo os passos de antigos peregrinos - Salcantay -Peru

Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 3º dia - vamos a La Playa!

A terceira noite esteve longe de ser agradável, pois passei boa parte do tempo tentando dormir, apesar da música muito alta e gente berrando ao lado da minha barraca. Por isso, na manhã seguinte, um pouco irritado, fui ter com o guia para relatar meu desconforto com a situação.

Acampado junto aos vizinhos barulhentos

Christian, o guia, ficou um pouco sem jeito e disse que não esperava que a festa fosse até tão tarde. E que a responsabilidade, na verdade, era do guia que acompanhava o grupo de baderneiros.

- Certamente! - respondi. Mas porque ele não tomou uma atitude?

- Porque ele também estava bêbado, Sr. Paulo ... retrucou Christian um tanto envergonhado.

Depois dessa instrutiva conversa fomos ao café. Nossa mesa era ao lado da cozinha onde Alejandro, o cozinheiro, preparava a refeição ouvindo rádio. Era possível escutar uma melodia tipicamente andina, acompanhada por alguém que cantava em quéchua. Christian explicou que se tratava de Huayno, um estilo de música regional que está ganhando cada vez mais adeptos no Peru graças a valorização da cultura inca tradicional. Segundo ele os grupos Huaynos Antiguos, Los Campesinos e Los Boemios são os melhores no momento. Fica a dica.

Voando alto


Conforme havíamos combinado na noite anterior, o transporte da Vertikal - empresa que opera a tirolesa - estava a postos aguardando os corajosos que haviam topado o desafio. Apenas umas quatro pessoas não aderiram e seguiram a pé até a hidroelétrica, ponto de partida para a última etapa da Trilha Salcantay.

Embarcamos no ônibus e ficamos aguardando até que los festeros chegassem. Como a farra fora até muito tarde ontem a maioria estava de ressaca e um tanto lerda. Saímos às 08:00 e em 15 min chegamos ao local.

A atividade iniciou com a colocação do equipamento de segurança: capacete, luvas de couro e cinto de segurança. O custo foi de S/100,00 mais uma taxa de S/ 30,00 para as fotografias feitas pela própria equipe durante o desenrolar do passeio. O percurso completo possui mais de 3 km de extensão divididos em 4 linhas e uma ponte suspensa. Numa das etapas é possível realizar o percurso de ponta cabeça e noutra deitado, o chamado estilo condor.

Para o alto e avante!

Após uma breve explanação sobre o funcionamento dos equipamentos e dicas básicas de segurança, fomos até o ponto inicial. Para começar, uma linha de um quilômetro a uns 250 m de altura! Confesso que parado a beira daquele abismo hesitei por alguns momentos, mas depois que decidi me lançar e a adrenalina entrou no sangue a vontade era de voar cada vez mais alto.

Membro da quipe de apoio resgata um praticante que parou no meio do caminho

Outro ponto alto foi a travessia da famosa Ponte Inca, uma estrutura de tábuas bem espaçadas suspensa entre duas colinas que é tudo, menos estável - cada passo é um frio na barriga. Boa parte da diversão consiste em segurar nos cabos de aço e balançar um pouco para ver os colegas tentarem se equilibrar!!! E esteja preparado por que alguém mais vai ter esta mesma ideia ...

A hidroelétrica


Por volta das 10:30 encerramos a visita à Vertikal e embarcamos no ônibus que nos levou até o ponto de partida para a última etapa da Trilha Salcantay.

Às 11:30 desembarcamos na localidade conhecida como Hidroelétrica, assim conhecida devido a proximidade com as instalações da geradora de energia, mas que na verdade é a estação final do trem que vai até Águas Calientes.

Estação Hidroelétrica

O leito dessa ferrovia segue sobre um caminho construído pelos incas que conectava Cuzco a vários centros cerimoniais, inclusive Machu Picchu, e era muito utilizado pelos antigos habitantes em suas peregrinações religiosas. Em 1916 esse caminho foi completamente destruído, com a remoção das pedras do calçamento original para dar passagem aos trilhos. Felizmente alguns sítios arqueológicos mais afastados não foram tão duramente afetados e permanecem de pé, como marcos desta ancestral rota de peregrinação. Assim, passamos por um antigo local de culto ainda bem conservado, com a Intiwatana, fonte de água para os ritos, nichos para múmias e uma área para depósito de oferendas. Intiwatana, para quem não sabe, é o local onde se amarra o Sol, ou seja, o altar do deus Inti.

Intiwatana do centro cerimonial próximo à hidroelétrica

A distância da estação à Àguas Calientes é de aproximadamente 10 km e a caminhada é feita seguindo os trilhos da ferrovia. Há também uma estação naquela cidade, mas o custo da passagem é proibitivo para boa parte dos peruanos e mochileiros em geral. Por esta razão, no lugar dos peregrinos originais, atualmente este caminho é utilizado por um expressivo número de turistas que utilizam o trem que sai da hidroelétrica em busca de uma tarifa mais acessível. Inclusive há serviços regulares de vans que fazem o roteiro Cuzco x Hidroelétrica x Cuzco de olho neste nicho de mercado.

Durante o trajeto cruzamos por vários grupos que voltavam da visita à Machu Picchu e a pergunta era sempre a mesma:

- Falta muito até a estação?

Caminhada é feita sobre o leito da ferrovia

A caminhada em si foi tranquila, sem alterações no caminho. A dificuldade ficou por conta da brita utilizada na manutenção da estrada de ferro, que cobre praticamente todo o percurso. É mais ou menos como caminhar sobre areia macia. No início não faz muita diferença, mas aos poucos o esforço extra exigido para manter o equilíbrio e a passada começam a fazer diferença. No meu caso, havia ainda um outro problema: como estava com o dedão machucado a instabilidade do terreno exigia que forçasse mais o pé, fazendo doer o ferimento.

Por ai não!


Já próximo a Águas Calientes paramos para descansar. Passado algum tempo - como estava me sentindo bem disposto - disse ao guia que iria na frente seguindo os trilhos. Christian concordou e ficou combinado que ele me alcançaria mais adiante no caminho.

Em determinado ponto passei por uma área de oficinas da ferrovia e, meio distraído, segui caminhando. Entretanto notei que um dos funcionários havia ficado olhando para mim com um ar meio estranho, mas não dei bola. Passado algum tempo escutei alguém chamando ao longe:

- Sr. Paulo! Por ai não Sr. Paulo!!

Olhei para trás e vi o guia correndo em minha direção.

- Sr. Paulo, não podemos seguir por este caminho. Mais adiante tem um túnel e é proibido passar a pé  por motivos de segurança.

Segundo Christian, depois de minha partida, ele havia ficado descansando por mais alguns minutos confiante que seria fácil me alcançar devido ao meu passo lento. Entretanto, quando retomou a marcha eu já havia sumido de vista (certamente devido a vontade de chegar no hotel e tirar as botinas!). No meio do caminho ele encontrou o tal funcionário que indicou por onde eu andava e se deu conta que eu continuara em frente, ao invés de tomar o desvio que contornava o túnel.

Felizmente o retorno até a encruzilhada da trilha não era muito distante e seguimos em frente por mais alguns minutos, quando então alcançamos Águas Calientes e demos por concluída a tão famosa Trilha Salcantay.


Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 3º dia - vamos a La Playa!

Veja os álbuns com as fotos de cada dia de trilha em nossa página no Facebook:
Trilha Salkantay - 1º dia de Mollepata a Soraypampa;
Trilha Salkantay - 2º dia de Soraypampa a Collpapampa;
Trilha Salkantay - 3º dia de Collpapampa a Santa Teresa;
Trilha Salkantay - 4º dia - Tirolesa e caminhada desde a hidrelétrica até Águas Calientes;
Trilha Salkantay - 5º dia - Visita à Machu Picchu.

Seguindo o modelo da viagem anterior, quando realizamos a Trilha Inca, iremos alternando entre fotos e relatos de modo a transmitir o mais fielmente possível as emoções desta jornada.

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