Olhando o conjunto de pedras mal alinhadas, cercado por avenidas e distante do mar fica difícil imaginar a importância de que desfrutou o Cais do Valongo em seus tempos áureos, bem como a relevância de seu testemunho para os dias de hoje.
Por outro lado, a história deste pedaço do Rio de Janeiro é na verdade um reflexo de como o tema da escravidão tem sido tratado desde os tempos do Brasil Colônia.
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| Antigo Cais do Valongo. |
Um pouco de história
A mão de obra escrava foi decisiva para o
desenvolvimento econômico e social do Brasil desde os tempos coloniais
até a derrocada do Império, mas a visão dos escravos em condições
sub-humanas era considerada um espetáculo repugnante, ao qual os
"cidadãos de bem" não deveriam ficar expostos. Pode parecer estranho,
mas foi esta a justificativa apresentada pelo Vice-Rei do Brasil em 1774
para transferir o desembarque dos navios negreiros da Praia do Peixe
(atual Praça XV) para a região do Valongo. Como ainda não havia sido
construído o cais, o desembarque era feito por botes.
Em
1779 a infra-estrutura básica para o comércio escravagista estava
montada e os negócios entraram em franca expansão. Em 1811 é construído o
Cais do Valongo e, ao final da década de 20 do século XIX, o tráfico de
escravos viveu seu apogeu, convertendo o Cais do Valongo na principal
porta de entrada para negros oriundos em sua maioria de Angola,
Moçambique e da África Centro-Ocidental. Estima-se que entre 1811 e 1831
(ano em que foi oficialmente fechado), 500.000 seres humanos
escravizados tenham pisado aquelas pedras, sendo que este número
ultrapassa a casa de 1 milhão de almas se for considerado o tempo total
de funcionamento do porto.
Com o anúncio da chegada da
Princesa Thereza Cristina de Bourbon em 1843, futura esposa de Dom Pedro
II, a região foi aterrada como parte das obras de embelezamento e
melhoramento do Cais do Valongo, que ganhou
um pavilhão de luxo e passou a se chamar Cais da Imperatriz, nome pelo
qual passou a ser conhecido até bem recentemente.
Para
sepultar de vez a vergonha do passado escravista, colonial e monárquico,
durante a reforma urbanística de Pereira Passos a região sofreria um
novo e definitivo aterro, o qual cumpriu bem sua missão até 2011, quando
equipes do Museu Nacional da UFRJ, coordenadas por Tania Andrade Lima,
localizaram e trouxeram à luz novamente as pedras pisadas do cais.
De
persona non grata da
memória nacional o cais se converteu em importante sítio
arqueológico e monumento à memória dos escravos que por ali passaram,
com reconhecimento internacional: em novembro de 2013 foi declarado
pela UNESCO como Patrimônio da Diáspora Africana.
Inserido
no projeto de revitalização da área portuária, o entorno do cais foi
urbanizado de modo a se tornar uma área de exposição permanente e poder
receber de forma adequada os visitantes que desejarem conhecer o local.
A Lavagem do Cais
Com tantas referências simbólicas
relacionadas aos negros e à escravidão é natural que o Cais do Valongo possua um
significado especial para as religiões de matriz africana, afinal por
aqui passaram aqueles que trouxeram suas crenças, saberes e cultura para esta
terra.
Por isto, no último dia 05, Mães de Santo,
Yalorixás, Babalorixás e demais representantes do Camdomblé se reuniram
para honrar os ancestrais com o ritual da Lavagem do Cais do Valongo.
Apesar da dor e do sofrimento trazidos pela condição de escravos daqueles que ali desembarcavam, não houve
espaço para tristeza ou revolta nesta bela cerimônia. Ao contrário,
todos compareceram com suas roupas de festa, trazendo flores brancas, desejos de paz e muita
água de cheiro, numa verdadeira celebração à vida que não para.
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| Mães de Santo a frente do cortejo. |
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| Flores e água de cheiro para homenagear os antepassados. |
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| Flores brancas foram lançadas sobre as pedras do antigo cais. |
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| A mesma terra que acolheu os antepassados recebeu a água de cheiro. |
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| Ao fim da cerimônia, o desejo de um coração cheio de paz. |
Como seria de se esperar numa festa, não poderia faltar música, dança e cantoria. Assim, encerrada a cerimônia, os atabaques soaram e logo se formou a tradicional roda
de samba, onde o destaque ficou por conta das integrantes do Afoxé Filhos de Ghandi.
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| Filhas de Ghandi, de verde, garantiram a animação da roda de samba. |
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| Participantes deram show, com muito samba no pé. |
Veja mais fotos no álbum
Lavagem do Cais do Valongo (clique aqui) em Abaretiba, nossa página no Facebook.
Fontes:
Saiba tudo sobre o Cais do Valongo - o local por onde entravam os africanos escravos no Brasil no século XIX. Disponível em
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/saiba-tudo-cais-valongo-local-onde-entravam-africanos-escravos-brasil-seculo-xix-731373.shtml. Acessado em 08 jul. 2014.
Prefeitura cria circuito da herança africana. Disponível em
http://portomaravilha.com.br/conteudo/ccjb.aspx. Acessado em 08 jul. 2014.