quarta-feira, 16 de abril de 2014

Cuzco, a versão cotidiana de uma cidade turística - Peru

Cuzco é um lugar repleto de singularidades. Aqui a cultura ancestral convive com a herança colonial e os tempos modernos sem conflitos aparentes. E isto não é difícil de perceber, mesmo estando muito próximo do Centro Histórico ou de outros pontos turísticos. Foi o que descobri na manhã do segundo dia, quando sai bem cedinho gastando sola pelas ruas para ver a cidade despertar.

Uma cena comum: mulheres com suas lhamas em busca de turistas para fotos.


Mulheres tradicionalmente vestidas atravessam a rua sob o olhar vigilante da guarda de trânsito.

E nem foi preciso ir muito longe. Bastou caminhar algumas quadras e parar numa esquina por alguns instantes para sentir que o tempo aqui flui em outro ritmo, bem mais devagar, trazendo cenas que mesclam a vida pacata do interior com a rotina de uma cidade grande. Como esta, da guarda de trânsito que acompanhou vigilante duas senhoras que precisavam atravessar a rua. Diga-se de passagem que o zelo se justifica, pois um dos pontos negativos de Cuzco é o trânsito confuso - e sempre engarrafado ao cair da tarde.


Mascar folhas de coca é um hábito por aqui.

Grupo local no assédio aos hóspedes de um grande hotel.

Quando chegava ao Centro Artesanal de Cuzco avistei, do outro lado da rua, um grupo parado em frente a um hotel de luxo e, pelo volume dos sacos que portavam, não foi difícil deduzir que eram vendedores de regalos e artesanías. Cada vez que um hóspede com cara de turista saia pela porta do hotel o grupo se acercava oferecendo suas mercadorias numa corrida para ver quem alcançava primeiro o freguês.


Enquanto fazia pontaria com a teleobjetiva para capturar a caça ao turista que se desenrolava mais adiante, um rapaz com uma grande pasta debaixo do braço chegou bem perto e ficou olhando, curioso. Era Henry, um simpático vendedor de quadros que deve ter achado muito estranho aquele gringo fotografando sabe-se lá o quê! Em pouco tempo a conversa corria solta como se fossemos velhos conhecidos. Depois de explicar a ele o propósito de minha visita prometi publicar sua foto e anunciar seu produto no blog. Então, promessa cumprida. Quando em Cuzco, procurem pelo Henry na praça em frente ao Centro de Artesanato e digam que fui eu quem o indicou.

Henry, pintor de rua e gente boa.
O Centro de Artesanato é um grande pavilhão que reúne diversas bancas dedicadas a venda de toda sorte de lembrancinhas de viagem. Muito provavelmente é aqui que se abastecem os vendedores ambulantes que abordam os turistas pela cidade oferecendo regalos a preços módicos. Embora haja uma indisfarçável padronização nas estampas e evidentes sinais de produção em série nos produtos, é um lugar que merece ser prospectado com calma em busca de manifestações autênticas e originais.

Corredores do Centro de Artesanato são decorados com bandeiras de vários paises.
Foi assim que me deparei com a tenda da Marlene, uma sorridente artesã que ficou muito orgulhosa em explicar que era ela e sua família quem produzia as peças pelas quais eu demonstrava interesse. Eram pequenos Toritos de Pukara feitos em porcelana vitrificada, pintados a mão com pigmentos orgânicos. Gostei tanto que levei cinco, voltei dois dias depois e levei mais cinco. Uma excelente lembrança para os amigos, o problema agora é conseguir me desapegar deles.

Marlene, misto de artesã e vendedora.

Alguns passos mais rápidos depois (as vezes esquecia que por lá o ar é rarefeito) e a respiração começou a ficar ofegante. Era a deixa para uma parada estratégica para um chá de coca. Na rua Matara, onde me encontrava, não faltam opções de bares e lancherias que oferecem o chá, então não foi preciso procurar muito. O curioso, para nós que temos outra ideia do que seja a coca, é que aqui ela é considerada um produto natural, oferecido abertamente e do qual sabem muito bem como obter os efeitos terapêuticos desejados. Quando bate o mal-estar provacado pela altitude, é um santo remédio.

Mate de coca industrializado. Um pouco amargo, mas eficaz contra o soroche.
Descansado e refeito, segui perambulando até chegar ao pórtico conhecido como Portal de Santa Clara, uma construção colonial que deve ter tido alguma função no passado, mas que hoje é apenas um magnífico ponto de referência.

Portal de Santa Clara, próxima a Igreja de São Francisco.

Cruzando pelo portal e seguindo em frente chega-se a praça onde fica o famoso Mercado Municipal ou Mercado de San Pedro, como também é conhecido. Não é um ponto turístico, mas se você, como eu, gosta de saber como vive o povo da região, a visita é obrigatória.

Logo na entrada chama a atenção uma grande faixa anunciando aos amigos do alheio que lhes está proibida a entrada. Aos que se arriscarem, pena de prisão e espancamento! Talvez seja este o segredo da tranquilidade do lugar.


Cartaz na entrada do mercado avisa que está proibido o ingresso de amigos do alheio no recinto.

No Mercado San Pedro encontra-se principalmente gêneros alimentícios e utilidades para o lar, com destaque para as frutas e hortaliças disponíveis em grandes quantidades e com excelente aspecto. Várias carnicerias (açougues) expõem sua mercadoria abertamente e sem refrigeração. Interessante que aqui não há moscas. Será pela altitude?


Açougueira preparando a carne.


Máscaras festivas. O nariz longo é uma alusão aos colonizadores espanhóis.

Além das bancas, há também vendedores ambulantes espalhados pelo mercado, expondo seus produtos no chão com a maior naturalidade.



Vendedora regando seus legumes.

Vendedora em meio aos corredores do mercado.

Vou de banca em banca cumprimentado a todos e perguntando sobre os produtos que oferecem. A recepção é amigável, como sempre, e todos parecem achar graça no meu interesse por coisas, para eles, tão comuns. As entrevistas, além de enriquecerem meu repertório culinário, acabam por proporcionar um benefício muito importante: uma senhora especializada em ervas medicinais me oferece um pacote de folhas de coca por Sl 1,00 (um sole = um real). Receoso, pergunto se pode ocorrer algum efeito colateral e ela, sem cerimônias, põe a língua para fora para mostrar que está mascando enquanto falamos. Com um sorriso explica que não há perigo e mostra a quantidade a ser usada em cada aplicação. Dias depois, encarando as escadarias de Wiñai Wayna, lembrarei desta lição com carinho.

E com isso foi-se a manhã. Retorno a Plaza de Armas para o almoço e, enquanto degustava uma saborosa carne de alpaca, me deparo com esta cena de dois cavalheiros conversando sob a sombra de um guarda-chuva. Cuzco não se cansa de me surpreender.

Um gesto de solidariedade.

Leia também o relato do primeiro dia: Cuzco - Peru.


Veja os álbuns de fotos sobre a viagem ao Peru em Abaretiba, nossa página no Facebook:
Cusco - flagrantes de um passante;
Mercado de San Pedro - aqui se encontra de tudo;
Trilha Inca Curta  - rumo à Machu Picchu;
Águas Calientes - reabastecer para continuar a jornada;
Machu Picchu  - um dia na cidade sagrada dos Incas.