segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cuzco - Peru

No último dia 06, as 05h40 da manhã, teve início a jornada rumo a Machu Picchu, a Cidade Sagrada dos Incas. Como o roteiro previa a realização da Trilha Inca Curta, um trajeto de 14km a pé pelas montanhas, optou-se por uma estadia de três dias em Cuzco para aclimatação devido a altitude.

Esta decisão não podia ser mais acertada. Para quem vive ao nível do mar, a mudança brusca para uma região de ar rarefeito produz uma série de efeitos no organismo, sendo a fadiga e a dificuldade para praticar atividades físicas simples a mais comum. Além disso, a cidade de Cuzco se revelou um lugar repleto de histórias, usos e costumes que precisavam ser descobertos e registrados.

Cusco, Cuzco ou Q'osqo?


Antes de prosseguir é bom que se diga que aqui foi adotada a forma atual de grafia do nome da cidade: Cuzco, com "z", para diferenciar de cusco, que em espanhol significa "cachorro".

Q'osqo é a forma quechua (idioma incaico) de designar a cidade e significa centro ou umbigo, uma vez que Q'osqo era a capital do Império Inca. Como os colonizadores espanhóis não conseguiam pronunciar o nome do lugar corretamente, acabaram por chamá-la Cusco, certamente com um viés pejorativo.

Do Rio a Lima


A viagem incluía uma parada em Lima, capital do Peru, para troca de aeronave. Como este foi o primeiro destino de um voo internacional, todos os procedimentos de imigração e aduana foram realizados aqui. O Aeroporto Internacional Jorge Chavez é um dos mais modernos da América Latina, tendo recebido prêmios internacionais em reconhecimento a qualidade dos serviços oferecidos.


Área de embarque internacional do aeroporto de Lima.

Curiosamente, para despachar a bagagem foi necessário dar a volta pela rua para entrar novamente no setor das companhias aéreas. Felizmente fazia sol!

De Lima a Cuzco


Logo após a decolagem a paisagem litorânea fica para trás e surgem cadeias de montanhas que formam uma bela paisagem. O percurso é curto e em uma hora e meia aproximadamente se chega a Cuzco. Aqui o aeroporto é menor e mais simples, mas funcional. Na saída, uma multidão formada por funcionários das agências de viagens que vem recepcionar seus clientes, taxistas e vendedores aguarda os turistas. A confusão é grande e é bom ficar atento. Sem esquecer que o corpo pode começar a apresentar os primeiros sinais da falta de oxigenação. O jeito é respirar fundo e caminhar devagar.

La Plaza de Armas


A primeira orientação dada aos recém chegados é para que repousem no primeiro dia e tomem muito chá de coca, uma forma milenar de combater o soroche (mal da altitude). Mas como repousar com tanta novidade correndo lá fora? O jeito foi largar a mala no quarto, passar a mão no equipamento fotográfico e sair gastando sola pelas ruas de Cuzco.

Chafariz da Plaza de Armas, com o Inca Dourado.

Em pouco tempo se chega a Plaza de Armas, local instituído pelo conquistador Francisco Pizarro por ocasião da tomada de Cuzco em 1533 em substituição à praça principal dos incas, localizada no mesmo lugar até hoje.

É nesta praça que se ergue imponente a Igreja de São Domingos, Catedral de Cuzco, e é também aqui que se concentra o setor turístico da cidade, com inúmeros restaurantes, casas de câmbio, hotéis, museus, lojas de artesanatos e ambulantes. Isto sem falar nas mulheres e crianças vestidas com trajes típicos que se oferecem para fotos por apenas un sole, señor (Sl 1,00 equivale a aproximadamente R$ 1,00).


Igreja da Companhia de Jesus.

Após algumas voltas pela praça era hora de ampliar o círculo e explorar seus arredores. Não foi preciso andar muito para perceber que a cidade é uma mescla de arquitetura inca e colonial, pois são muitos os prédios que apresentam a base composta por pedras polidas e perfeitamente encaixadas, característica dos incas, com paredes mais modernas erguidas sobre elas.

Rua típica do centro histórico de Cuzco.

Outro detalhe característico é o recorte dos telhados e a presença de balcões de madeira ricamente decorados, o que não deixa dúvidas sobre a origem espanhola das construções.

Balcões de madeira são comuns por aqui.

Um povo orgulhoso e hospitaleiro


Não há como ouvir o relato dos guias sobre as atrocidades cometidas pelos colonizadores na conquista da América Latina e ficar indiferente. Afinal, aqui ocorreu o genocídio de uma civilização inteira. Vidas foram massacradas e sua cultura destituída de qualquer valor. Na ânsia de sufocar as manifestações religiosas originais, os espanhóis ergueram suas igrejas sobre os palácios incas e substituíram seus deuses por santos católicos.

Cruz enfeitada por ocasião da quaresma.

Mesmo assim, dizem os guias com uma indisfarçável ponta de orgulho, o povo soube como abraçar os novos símbolos impostos e mesclar com suas crenças, num forte sincretismo que se manifesta principalmente agora, na semana santa. O culto a Pachamama seguiu na adoração à Virgem Maria e os artistas da escola cusquenha de arte implantaram símbolos pagãos em diversas obras que enfeitam a catedral de Cuzco. Um exemplo desta resistência cultural é o rosto do conquistador Francisco Pizarro no corpo de Judas, no quadro A Última Ceia.


Artesã em trajes típicos oferece seus trabalhos na Plaza de Armas.

Mas, a julgar pela passagem por Lima e pelas experiências vividas em Cuzco, pode-se dizer que o povo peruano é, além de muito orgulhoso de seu passado, bastante amável e sabe como receber bem o turista. Em mais de uma ocasião tive a oportunidade de constatar isto pela gentileza com que fui tratado por pessoas das mais diversas ocupações, inclusive transeuntes sem relação com prestação de serviços turísticos.

Señor Inácio, com quem aprendi algo sobre as técnicas cirúrgicas dos incas.

E com relação à segurança, posso afirmar que fiz minhas caminhadas pela cidade completamente distraído e com a câmera fotográfica no pescoço, como há muito não fazia. Proeza impensável no Rio de Janeiro dos dias atuais.

Veja os álbuns de fotos sobre a viagem ao Peru em Abaretiba, nossa página no Facebook:
Trilha Inca Curta  - rumo à Machu Picchu;
Águas Calientes - reabastecer para continuar a jornada;
Machu Picchu  - um dia na cidade sagrada dos Incas.

Leia também o artigo Cuzco, a versão cotidiana de uma cidade turística - Peru, o relato do caminho até Machu Picchu em Trilha Inca Curta e sobre a experiência de estar em Machu Picchu em Machu Picchu - Peru.