quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Flutuante dos Botos - Novo Airão - AM

Depois de rodar quase 200km Amazônia adentro, passar uma noite tranquila e degustar um café regional com direito a tapioca recheada, finalmente era hora de conhecer o tão falado Flutuante dos Botos - para saber como tudo começou, veja a primeira parte desta história em Uma aventura inesperada (clique aqui).

O boto cor-de-rosa.

Casas flutuantes são comuns por aqui não só pela facilidade de locomoção, mas também devido as constantes, e dramáticas, mudanças nos níveis dos rios. E não só as casas flutuam, pois há também mercados de artesanato, armazéns, postos de saúde, agências bancárias e, acredite, até chiqueiros que utilizam este sistema.

Um pouco de história


Há pouco mais de dez anos o flutuante era apenas a residência de D. Marilza e suas duas filhas, Marisa e Monike. Quando tinha por volta de oito anos, Marisa começou a alimentar os botos que circulavam por ali e acabou criando um vínculo com alguns deles. É importante salientar que esta foi uma atitude pioneira numa época em que a conscientização sobre a necessidade de preservar o meio-ambiente ainda não havia chegado até os ribeirinhos da região. Mesmo nos dias atuais o boto cor-de-rosa é caçado indiscriminadamente para servir de isca ou para extração dos órgãos genitais para confecção de poções as quais a crendice popular atribui propriedades afrodisíacas. A docilidade que fez com que eles se aproximassem da menina Marisa é também o elemento que facilita o trabalho destes pescadores inescrupulosos.

Aos poucos o número de animais atraídos pelas crianças foi crescendo e a interação entre eles também. Além de alimentá-los, elas passaram a nadar com eles, o que lhes valeu o apelido de Encantadoras de Botos. Não demorou para que a história se espalhasse e atraísse o interesse da imprensa. O flutuante já foi tema de dois documentários internacionais, teve uma participação no filme Fundo do Abismo e já foi tema de reportagens de diversas emissoras brasileiras. Personalidades do calibre de Bill Gates, Richard Rasmussem, Lawrence Wahba, Sandra Annenberg, entre outros, já deram o ar da graça por aqui. Hoje a atração é geradora de renda para toda a cidade de Novo Airão devido ao grande número de turistas atraídos pela possibilidade de ficar tão próximo a um boto amazônico.

A coisa tomou tal dimensão que em 2010, por iniciativa do Conselho Consultivo do Parque Anavilhanas (onde o flutuante está inserido) foi criado o Grupo de Trabalhos para analisar o assunto, o GT-Botos.

Apenas os monitores podem alimentar os botos.

O resultado deste trabalho foi uma proposta de ordenamento do turismo com botos que procurou conciliar todos os aspectos envolvidos: biológicos, ecológicos, além das variáveis culturais, sociais e econômicas. A partir daí foram implementadas as seguintes medidas de ordem prática:

  • Somente funcionários treinados podem alimentar os animais; 
  • O limite é de 2 kg/dia de peixe para cada boto;
  • Não é mais permitido nadar com os animais. Os visitantes podem entrar na plataforma submersa desde que se comportem de maneira passiva, sem molestar os animais;
  • Antes da observação é ministrada uma palestra sobre os botos e a atividade de interação desenvolvida;
  • O número de pessoas na plataforma emersa e submersa é controlado;
  • Está proibida a navegação em um raio de 20 metros ao redor do flutuante.

Curumim na esperança de ganhar mais um peixinho.

Turismo consciente


Pelas conversas que tivemos com a equipe que nos atendeu, mas principalmente pelo que pudemos observar durante o tempo que permanecemos no local, há uma grande preocupação com o bem-estar dos botos. Aqui não há redes ou telas prendendo os animais, os quais vem e vão livremente e nem sempre são os mesmos. O convívio da equipe com eles é tão natural que os mais assíduos tem até nome e são tratados de acordo com suas preferências.

No dia em que visitamos o Flutuante, deram o ar da graça Chico, um macho irrequieto e guloso que corria os demais querendo abocanhar todos os peixes, uma fêmea e Curumim, outro macho, mais velho que os demais e também o mais fácil de identificar porque tem a mordida cruzada. Segundo a monitora, Curumim tinha o bico normal até ser arpoado por um pescador e escapar. A ponta do arpão ficou presa em sua boca e foram os outros botos que a arrancaram, deixando torta sua queixada.

Eles adoram um carinho no papo.

Durante a exposição que antecede o contato, Marisa foi passando algumas orientações importantes sobre os hábitos, o comportamento e a maneira como deveríamos nos comportar. Tocar nos botos faz parte da atração, mas é preciso seguir algumas regras para evitar incidentes desagradáveis, afinal, apesar de fofinhos, são animais selvagens: nunca encostar na parte de cima da cabeça (a bossa onde fica o "sonar" do animal). O correto é acariciar a parte de baixo ou das costas para o rabo. Desde 2010 não é mais permitido nadar com os botos, mas o Flutuante conta com uma plataforma submersa onde os visitantes podem se apoiar para ter um contato mais próximo com os bichinhos.

Uma curiosidade interessante a respeito dos botos é que eles tem personalidade própria. Por exemplo, quando o boto Dani aparece é proibido entrar na água, pois ela - é uma fêmea - gosta de interagir com as pessoas mordendo. Embora a mordida seja uma forma de brincar, os turistas acabavam se machucando ao se assustar e puxar o membro mordido instintivamente, o que ocasionava arranhões e cortes superficiais na pele.

Uma experiência emocionante


Enquanto estava na plataforma submersa fotografando por diversas vezes um deles vinha e roçava nas minhas pernas como se estivesse querendo chamar minha atenção. Em outro momento, a Renata (da equipe do blog) estava sentada com os pés dentro da água quando sentiu que Chico vinha e mordiscava levemente seus dedos. Apesar de não domesticados, são animais que aprenderam a conviver com as pessoas e parecem gostar de brincar com elas.

Não sei se terei a oportunidade de encostar num boto dentro da água novamente, mas posso garantir que a sensação que tive naquele dia não será esquecida facilmente! Sob uma pele macia e escorregadia é possível sentir que há muita força naquele corpo adaptado a vida aquática e que na verdade ele é que está dando a oportunidade de viver aquela experiência. Sai de lá com um sentimento bom e, a julgar pela expressão dos demais visitantes, não fui o único.

De olho no chapéu. Quem conhece a lenda do boto sabe porque!!

Veja o início desta aventura no post Uma aventura inesperada (clique aqui).

Para ver estas e outras fotos, acesse o álbum Novo Airão - Amazonas (clique aqui) em nossa página no Facebook.

Flutuante dos Botos


Endereço: Rua Antenor Carlos Frederico, s/n, Novo Airão - Amazonas.
Horário: 08h00 às 17h00. Os botos são alimentados em intervalos regulares às 09, 10, 11, 12, 14. 15, 16 e 17 horas.
Ingresso: R$ 25,00 por pessoa. Crianças até 10 anos são isentas.
Dica: vá com trajes de banho para poder curtir os botos dentro da água.


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Fontes


AMA BOTO. História. Novo Airão. Disponível em http://amaboto.com.br/historia/. Acessado em 27 jan. 2015.

PARQUE NACIONAL DE ANAVILHANAS. ICMBio. Turismo com botos vermelhos. Novo Airão. Disponível em http://www.icmbio.gov.br/parnaanavilhanas/turismo-com-botos-vermelhos.html. Acessado em 27 jan. 2015.