segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Gastando Sola faz três anos de estrada - venha comemorar caminhando conosco!!

Em setembro o Gastando Sola Mundo Afora completa 03 anos de existência. E para comemorar no melhor estilo dos gastadores de sola fechamos uma parceria com a Agência Mila Turismo  - que é especialista em montar roteiros sensacionais - para realizar um tour no Morro de Santa Teresa, o bairro mais charmoso do Rio de Janeiro. Será uma caminhada entre amigos a ser efetuada no próximo dia 08 de outubro, onde os presentes irão desfrutar dos atrativos de Santa e participar do sorteio de diversos brindes úteis e divertidos.

A participação é gratuita, mas limitada a 20 vagas. Por isso estamos promovendo um sorteio entre os interessados e a condição para participar é curtir nossa página no Facebook. Para se inscrever no sorteio, clique aqui.



Venha Gastar Sola em Santa Teresa!


Quando: dia 08 de outubro
Onde: o ponto de encontro será na Sala Cecília Meirelles, no Centro do Rio

Roteiro:
  • Escadaria Selaron;
  • Convento de Sta Teresa (caso esteja fechado, visitação externa);
  • Parque das Ruínas;
  • Museu Chácara do Céu;
  • Largo do Curvelo;
  • Largo dos Guimarães;
  • Museu do bonde;
  • Museu Benjamim Constant.

Recomendamos o uso de calçados confortáveis, de preferência tênis.

Não esqueça de trazer sua câmera fotográfica e depois enviar suas fotos para participar da nossa galeria virtual!!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

De volta à Terra da Seresta - Conservatória - RJ

Estivemos em Conservatória pela primeira vez em 2013 e ficamos encantados com a atmosfera interiorana deste pequeno distrito de Valença. Nessa ocasião, ainda pudemos acompanhar um grupo de seresteiros que saiu em caminhada noite adentro tocando, cantando, se divertindo e fazendo a alegria de todos que se reuniam a eles atendendo ao convite irrecusável das violas.

Antiga estação ferroviária, hoje rodoviária de Conservatória

Aproveitando o evento Encontro Conservatória, promovido pelo Projeto Fotografando Pelo Rio. voltamos à Terra da Seresta nos dias 30 e 31 de julho deste ano. O lugar em si até não mudou muito, mas ficamos com a impressão que o sucesso e a fama acarretaram um fluxo excessivo de turistas para um lugar que já não comporta mais tanta gente. Nas duas ruas principais do centro as residências foram convertidas em pontos de comércio e por vezes fica até difícil caminhar por ali devido ao aglomerado de pessoas.

O que não significa que Conservatória perdeu seus encantos. Sabendo olhar, percebe-se que o estilo de vida rural ainda está presente no dia-a-dia de muitos de seus moradores. Hábitos há muito esquecidos nas grandes cidades, como sentar na calçada para apreciar o movimento, chamar pelo nome seus vizinhos ou dar aquele dedo de prosa com os passantes, continuam ativos por aqui.

Apesar do crescimento, ainda há espaço para um dedo de prosa

Outro ponto que continua a chamar a atenção é a arquitetura, principalmente no que diz respeito as famosas janelas de Conservatória. Estes adornos ricamente elaborados já foram sinal de prosperidade de seus proprietários e dificilmente podem ser encontrados em outro local. Para quem curte, é um prato cheio.

As janelas são um bom motivo para visitar a região

E por falar em obras de arte em madeira, é aqui em Conservatória que a artista Cristina Painhas mantém seu ateliê Arte em Oratórios. Das mãos mágicas de Cristina saem capelinhas, presépios e oratórios que chamam a atenção tanto pela beleza quanto pela singelesa das cores e formas. São itens totalmente artesanais e exclusivos, coisa rara de se encontrar nestes tempos de artesanato feito em série.

E se depois de gastar sola curtindo as belezas da cidadezinha bater aquela fome recomendamos o Restaurante Boemia, onde D. Tânia e família oferecem um buffet de comida caseira temperada com muita simpatia.

Confira estas e outras imagens nos perfis do GSMA nas redes sociais:
Facebook: álbum Gastando Sola na Terra da Seresta;
Instagram: utilize a hashtag #gsmaconservatoria.
A seguir separamos algumas das principais atrações oferecidas aos visitantes em Conservatória.

Cachoeira da Índia


Apesar de ser um dos pontos turísticos mais visitados de Conservatória, poucos sabem que a misteriosa figura que dá nome ao local tem nome e se chama Araris. Depois da primeira viagem nossa equipe foi atrás desta história e contou tudo num post exclusivo sobre ela (leia clicando aqui!).

Araris, a bela e enigmática figura que todos conhecem por Índia da Cachoeira

A estátua fica no Balneário Municipal João Raposo, distante uns dois quilômetros do centro de Conservatória. O entorno foi revitalizado e agora conta com um quiosque que oferece bebidas geladas e refeições - comida mineira feita em fogão à lenha.

Balneário conta com boa infraestrutura

Quem gosta de caminhar pode ir a pé, pois o caminho é bem tranquilo e não há como se perder. E aqueles que preferirem ir de carro poderão estacionar sem custo dentro do balneário.

Cachaçaria Vilarejo


E por falar em cachoeira, bem pertinho dali há uma outra atração que certamente vai interessar os que preferem a água que passarinho não bebe: a Cachaçaria Vilarejo.

 Além da marvada propriamente dita o visitante pode degustar várias outras especialidades da casa, como licores e rapaduras, por exemplo. A loja é bem organizada e os atendentes atenciosos.


Tonéis onde a cachaça é envelhecida

A adega onde é envelhecida a cachaça, muito boa por sinal, também é aberta a visitação. Entretanto não é recomendável para quem sofre de alergias devido a alta umidade do local.

O Túnel Que Chora


Segundo contam os antigos, em tempos idos a água vertia em tal quantidade que alagava a passagem. Hoje em dia um fraco gotejamento forma algumas poças pelo chão. O interessante é que isso parece não incomodar os visitantes que se divertem em cruzar o túnel de um lado ao outro.

O túnel foi escavado por escravos

Ao visitar esta atração fique atento! Embora seja uma atividade para pedestres o fluxo de veículos é grande e há pouco espaço no interior do túnel.

Serra da Beleza


Fica um pouco distante do centro e é preciso ir de carro até o mirante localizado nas margens da rodovia, mas podemos garantir que vale a pena a viagem. A serra por si só justifica seu nome e a fama de seu por de sol não fica atrás. Diariamente diversos espectadores se reúnem para apreciar esse belo espetáculo da natureza.

Pôr do sol na Serra da Beleza, uma atração que vale a pena

E se você é daqueles que acredita que a verdade está lá fora talvez seja o caso de estender um pouco mais a visita. A Serra da Beleza também é internacionalmente conhecida por ser um ponto de avistamento de OVNI´s.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Trilha Salcantay - 4º dia - seguindo os passos de antigos peregrinos - Salcantay -Peru

Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 3º dia - vamos a La Playa!

A terceira noite esteve longe de ser agradável, pois passei boa parte do tempo tentando dormir, apesar da música muito alta e gente berrando ao lado da minha barraca. Por isso, na manhã seguinte, um pouco irritado, fui ter com o guia para relatar meu desconforto com a situação.

Acampado junto aos vizinhos barulhentos

Christian, o guia, ficou um pouco sem jeito e disse que não esperava que a festa fosse até tão tarde. E que a responsabilidade, na verdade, era do guia que acompanhava o grupo de baderneiros.

- Certamente! - respondi. Mas porque ele não tomou uma atitude?

- Porque ele também estava bêbado, Sr. Paulo ... retrucou Christian um tanto envergonhado.

Depois dessa instrutiva conversa fomos ao café. Nossa mesa era ao lado da cozinha onde Alejandro, o cozinheiro, preparava a refeição ouvindo rádio. Era possível escutar uma melodia tipicamente andina, acompanhada por alguém que cantava em quéchua. Christian explicou que se tratava de Huayno, um estilo de música regional que está ganhando cada vez mais adeptos no Peru graças a valorização da cultura inca tradicional. Segundo ele os grupos Huaynos Antiguos, Los Campesinos e Los Boemios são os melhores no momento. Fica a dica.

Voando alto


Conforme havíamos combinado na noite anterior, o transporte da Vertikal - empresa que opera a tirolesa - estava a postos aguardando os corajosos que haviam topado o desafio. Apenas umas quatro pessoas não aderiram e seguiram a pé até a hidroelétrica, ponto de partida para a última etapa da Trilha Salcantay.

Embarcamos no ônibus e ficamos aguardando até que los festeros chegassem. Como a farra fora até muito tarde ontem a maioria estava de ressaca e um tanto lerda. Saímos às 08:00 e em 15 min chegamos ao local.

A atividade iniciou com a colocação do equipamento de segurança: capacete, luvas de couro e cinto de segurança. O custo foi de S/100,00 mais uma taxa de S/ 30,00 para as fotografias feitas pela própria equipe durante o desenrolar do passeio. O percurso completo possui mais de 3 km de extensão divididos em 4 linhas e uma ponte suspensa. Numa das etapas é possível realizar o percurso de ponta cabeça e noutra deitado, o chamado estilo condor.

Para o alto e avante!

Após uma breve explanação sobre o funcionamento dos equipamentos e dicas básicas de segurança, fomos até o ponto inicial. Para começar, uma linha de um quilômetro a uns 250 m de altura! Confesso que parado a beira daquele abismo hesitei por alguns momentos, mas depois que decidi me lançar e a adrenalina entrou no sangue a vontade era de voar cada vez mais alto.

Membro da quipe de apoio resgata um praticante que parou no meio do caminho

Outro ponto alto foi a travessia da famosa Ponte Inca, uma estrutura de tábuas bem espaçadas suspensa entre duas colinas que é tudo, menos estável - cada passo é um frio na barriga. Boa parte da diversão consiste em segurar nos cabos de aço e balançar um pouco para ver os colegas tentarem se equilibrar!!! E esteja preparado por que alguém mais vai ter esta mesma ideia ...

A hidroelétrica


Por volta das 10:30 encerramos a visita à Vertikal e embarcamos no ônibus que nos levou até o ponto de partida para a última etapa da Trilha Salcantay.

Às 11:30 desembarcamos na localidade conhecida como Hidroelétrica, assim conhecida devido a proximidade com as instalações da geradora de energia, mas que na verdade é a estação final do trem que vai até Águas Calientes.

Estação Hidroelétrica

O leito dessa ferrovia segue sobre um caminho construído pelos incas que conectava Cuzco a vários centros cerimoniais, inclusive Machu Picchu, e era muito utilizado pelos antigos habitantes em suas peregrinações religiosas. Em 1916 esse caminho foi completamente destruído, com a remoção das pedras do calçamento original para dar passagem aos trilhos. Felizmente alguns sítios arqueológicos mais afastados não foram tão duramente afetados e permanecem de pé, como marcos desta ancestral rota de peregrinação. Assim, passamos por um antigo local de culto ainda bem conservado, com a Intiwatana, fonte de água para os ritos, nichos para múmias e uma área para depósito de oferendas. Intiwatana, para quem não sabe, é o local onde se amarra o Sol, ou seja, o altar do deus Inti.

Intiwatana do centro cerimonial próximo à hidroelétrica

A distância da estação à Àguas Calientes é de aproximadamente 10 km e a caminhada é feita seguindo os trilhos da ferrovia. Há também uma estação naquela cidade, mas o custo da passagem é proibitivo para boa parte dos peruanos e mochileiros em geral. Por esta razão, no lugar dos peregrinos originais, atualmente este caminho é utilizado por um expressivo número de turistas que utilizam o trem que sai da hidroelétrica em busca de uma tarifa mais acessível. Inclusive há serviços regulares de vans que fazem o roteiro Cuzco x Hidroelétrica x Cuzco de olho neste nicho de mercado.

Durante o trajeto cruzamos por vários grupos que voltavam da visita à Machu Picchu e a pergunta era sempre a mesma:

- Falta muito até a estação?

Caminhada é feita sobre o leito da ferrovia

A caminhada em si foi tranquila, sem alterações no caminho. A dificuldade ficou por conta da brita utilizada na manutenção da estrada de ferro, que cobre praticamente todo o percurso. É mais ou menos como caminhar sobre areia macia. No início não faz muita diferença, mas aos poucos o esforço extra exigido para manter o equilíbrio e a passada começam a fazer diferença. No meu caso, havia ainda um outro problema: como estava com o dedão machucado a instabilidade do terreno exigia que forçasse mais o pé, fazendo doer o ferimento.

Por ai não!


Já próximo a Águas Calientes paramos para descansar. Passado algum tempo - como estava me sentindo bem disposto - disse ao guia que iria na frente seguindo os trilhos. Christian concordou e ficou combinado que ele me alcançaria mais adiante no caminho.

Em determinado ponto passei por uma área de oficinas da ferrovia e, meio distraído, segui caminhando. Entretanto notei que um dos funcionários havia ficado olhando para mim com um ar meio estranho, mas não dei bola. Passado algum tempo escutei alguém chamando ao longe:

- Sr. Paulo! Por ai não Sr. Paulo!!

Olhei para trás e vi o guia correndo em minha direção.

- Sr. Paulo, não podemos seguir por este caminho. Mais adiante tem um túnel e é proibido passar a pé  por motivos de segurança.

Segundo Christian, depois de minha partida, ele havia ficado descansando por mais alguns minutos confiante que seria fácil me alcançar devido ao meu passo lento. Entretanto, quando retomou a marcha eu já havia sumido de vista (certamente devido a vontade de chegar no hotel e tirar as botinas!). No meio do caminho ele encontrou o tal funcionário que indicou por onde eu andava e se deu conta que eu continuara em frente, ao invés de tomar o desvio que contornava o túnel.

Felizmente o retorno até a encruzilhada da trilha não era muito distante e seguimos em frente por mais alguns minutos, quando então alcançamos Águas Calientes e demos por concluída a tão famosa Trilha Salcantay.


Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 3º dia - vamos a La Playa!

Veja os álbuns com as fotos de cada dia de trilha em nossa página no Facebook:
Trilha Salkantay - 1º dia de Mollepata a Soraypampa;
Trilha Salkantay - 2º dia de Soraypampa a Collpapampa;
Trilha Salkantay - 3º dia de Collpapampa a Santa Teresa;
Trilha Salkantay - 4º dia - Tirolesa e caminhada desde a hidrelétrica até Águas Calientes;
Trilha Salkantay - 5º dia - Visita à Machu Picchu.

Seguindo o modelo da viagem anterior, quando realizamos a Trilha Inca, iremos alternando entre fotos e relatos de modo a transmitir o mais fielmente possível as emoções desta jornada.

Acompanhe nossas publicações no Instagram através da hashtag #gsmasalcantay.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Trilha Salcantay - 3º dia - vamos a La Playa! - Salcantay - Peru

Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 2º dia - através da montanha
O acampamento em Collpapampa

Após uma boa noite de sono tudo pareceu bem melhor, inclusive o pé que havia machucado na véspera. Tratei de reforçar o curativo, acabando com o estoque de gaze que trazia para emergências como essa. Em seguida tomamos café e nos despedimos de José, o arrieiro, pois a partir daquele ponto o transporte do equipamento não precisaria mais ser feito a cavalo. Como é de praxe, junto com meus agradecimentos deixei uma boa gorjeta.

Saímos do acampamento em Collpapampa (2.800 m) às 06:15 rumo à localidade de Sahuayacu (1.800 m), mais conhecida como La Playa por ficar nas margens de um grande rio do qual não guardei o nome. O percurso do terceiro dia tem extensão aproximada de 10 km e é mais tranquilo que o dos dias anteriores. A temperatura é amena e as terras áridas e pedregosas dão lugar à floresta sub-tropical, alterando completamente a paisagem.

Pela floresta é mais divertido


Seguimos por uma estrada de chão até chegarmos ao rio Tottora, cujo leito acompanha o vale formado na junção de duas montanhas. A partir deste ponto há duas opções de trajeto. A primeira é continuar caminhando por la carretera (estrada) na encosta do monte localizado na margem direita. A segunda é seguir por uma trilha que corta a elevação situada na margem esquerda. Pela estrada o caminho é mais fácil, mas também mais monótono e empoeirado. Como bons aventureiros que somos optamos pela trilha e fomos adiante, protegidos pela sombra das árvores que ladeavam o caminho.

Ponto em que a trilha se divide entre a estrada e o caminho da encosta

Às 09:20 parada em Waynapocco para um lanche rápido. A área é bem organizada, com banheiros e uma tienda onde é possível comprar água mineral, isotônicos, biscoitos e outras guloseimas. Um burrico pastava por ali, a espera dos petiscos deixados pelos turistas.

Burrico é atração local

Ao contrário das áreas pelas quais havíamos passado nos dias anteriores, esta região é mais densamente povoada. Seus habitantes são, em sua maioria, pequenos agricultores que começam a descobrir as possibilidades oferecidas pelo aumento do turismo. Por isso, além das cascatas e da floresta, avistamos roçados e pontos de venda montados pelos locais em busca de uma renda extra. Foi num destes que paramos por volta das 11:35 na localidade de Pgllu. Era uma pequena tienda construída com as matérias primas disponíveis no local: madeira, palha e pedras. O estabelecimento é novo - fora inaugurado há apenas uma semana! Ao fundo o marido da senhora que atendia no balcão quebrava pedras com uma enorme marreta, certamente providenciando material de construção para ampliação do estabelecimento.

O caminho da encosta e suas paisagens

Sempre há tempo para um café


Chegamos a La Playa por volta das 13:00 para almoço no Camping Restaurant Canela. O lugar é bem organizado, com instalações confortáveis e cercado pela natureza. Há um pátio interno gramado onde as pessoas podem descansar e dar uma lagarteada ao sol. Aproveitando que havíamos chegado cedo, sentei e tirei as botinas para dar um alívio aos pés e ao pobre dedão magoado. Como o trajeto a pé estava encerrado, calçei as sandálias e fiquei mais a vontade.

Na parte da tarde havia a opção de seguir para as águas termais de ônibus e de lá para Santa Teresa (1.500 m), local do terceiro acampamento. Entretanto não estava minimamente disposto a compartilhar piscinas de água quente com um bando de desconhecidos. Por isso pedi ao guia que contratasse um transporte particular, dentre os vários disponíveis na entrada do camping. Pouco tempo depois Christian retornou, informando que havia conseguido alugar um carro com motorista por S/ 30,00 - o mesmo preço da passagem do ônibus!! O preço normal, segundo ele, oscila entre S/ 50,00 e S/ 60,00, mas ele encontrou um motorista novo e regateou até conseguir um bom preço. Pedir ao guia que fizesse a negociação foi estratégico, pois devido a minha cara de gringo os prestadores de serviço normalmente cobram pelo menos o dobro do valor regular.

As tigelas bebedouros

Enquanto aguardava o guia retornar fiquei observando os carregadores de outro grupo organizarem algumas bagagens no pátio central. Como de costume, após colocarem as mochilas agrupadas a espera de seus donos, deixaram três bacias com água para que os viajantes pudessem se refrescar quando chegassem. Entrementes dois cachorrinhos que andavam brincando por ali aproveitaram as bacias para matar a sede. Coisas que acontecem.

Depois do almoço fomos assistir a uma apresentação sobre a produção de café orgânico feita pelo Sr. Abel, um dos proprietários do estabelecimento. Cheio de disposição, ele nos levou aos fundos da propriedade, onde fica a plantação de café, e começou a colheita dos grãos, os quais ia depositando numa sacola. De acordo com ele há duas variedades plantadas: o cátimor e o arábico, sendo que o segundo produz bem numa altitude em torno de 2.000 m.

Uma vez colhidos, os grãos são descascados e, posteriormente, torrados. Neste dia foi utilizado o método tradicional, que consiste em colocar os grãos num recipiente de barro conhecido como Canalla e torrá-los lentamente em fogo de lenha. O interessante é que todos podem participar e aprender na prática como realizar o procedimento. Aliás, este foi um dos melhores momentos da visita. Uma vez torrado, basta moer e voilá, o café está pronto para ser consumido.

Torrando café na Canalla

Depois de tanto esforço é claro que acabei comprando dois pacotes para trazer ao Brasil. Diga-se de passagem que um já se foi e o sabor é o mesmo daquele que provei em terras peruanas.

Santa Teresa


O percurso de carro até Huadquña (o nome quéchua de Santa Teresa, 1.560 m) leva uns 40 minutos e é feito em uma estrada de chão batido em condições regulares de conservação. Fomos eu, o guia, o cozinheiro e todo o equipamento (barraca, tralhas de cozinha, etc.).  O carro até que não era dos piores, embora a suspensão já estivesse dando evidentes sinais de desgaste de tanto rodar naquela buraqueira.

Ficamos no Camping do Sr. Genaro, o qual é bem localizado e possui instalações melhores do que o de Collpapampa. Outra vantagem é que aqui o banho quente custava apenas S/ 5,00 e o banheiro tinha vidro nas janelas!!

Como chegamos cedo, Christian e eu aproveitamos para ir ao centro de Santa Teresa. Meu estoque de gaze havia acabado e era preciso trocar o curativo do dedão. Além disso, depois de passar três dias no meio do nada, estava curioso para conhecer o povoado. O interessante é que todos os prédios são novos. Conforme me contou o guia, a cidade original ficava um pouco mais abaixo e foi completamente destruída por ocasião de uma enchente há alguns anos, tendo sido totalmente reconstruída no local atual. Como ao lado da farmácia havia uma lan-house aproveitei para mandar uma mensagem para casa dizendo que estava vivo e bem (não falei sobre o acidente, claro). Paguei S/ 0,50 por quinze minutos de uso.

O centro de Santa Teresa

Retornamos ao acampamento para a janta. Nesta noite um representante da Vertical Zip Line veio apresentar a atração para os turistas ali acampados. Trata-se de uma tirolesa muito conhecida pelos amantes de esportes radicais. São mais de 3 km de extensão divididos em 5 linhas, cada uma com um estilo próprio.

Para participar é preciso se inscrever com antecedência, pois a empresa envia um ônibus para recolher os interessados. Depois, este mesmo ônibus leva os turistas até a hidrelétrica, de onde a trilha segue até Águas Calientes.

Durma-se com um barulho destes


O tempo estava bom e a temperatura agradável, por isso me preparei para dormir confiante que seria outra noite repousante. Ledo engano! Uma balada com música "aos berros" como se diz lá em casa não me deixou dormir sossegado. E para completar, um argentino bêbado, cuja barraca ficava próxima a minha, foi arrastado pelos colegas porque queria brigar com outro viajante e ficou por um longo tempo bradando bravatas e chamando o oponente de maricón.

No dia seguinte tive uma conversa séria a respeito desses incidentes com o guia, mas isto já é assunto para o próximo episódio da série!

(continua no próximo post)

Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 2º dia - através da montanha

Veja os álbuns com as fotos de cada dia de trilha em nossa página no Facebook:
Trilha Salkantay - 1º dia de Mollepata a Soraypampa;
Trilha Salkantay - 2º dia de Soraypampa a Collpapampa;
Trilha Salkantay - 3º dia de Collpapampa a Santa Teresa;
Trilha Salkantay - 4º dia - Tirolesa e caminhada desde a hidrelétrica até Águas Calientes;
Trilha Salkantay - 5º dia - Visita à Machu Picchu.

Seguindo o modelo da viagem anterior, quando realizamos a Trilha Inca, iremos alternando entre fotos e relatos de modo a transmitir o mais fielmente possível as emoções desta jornada.

Acompanhe nossas publicações no Instagram através da hashtag #gsmasalcantay.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Trilha Salcantay - 2º dia - através da montanha - Salcantay - Peru

Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 1º dia - dormindo aos pés da montanha

Chegar ao acampamento base foi relativamente fácil. Difícil mesmo foi aguentar a friaca de -10 °C - você leu certo, dez graus negativos! - que fez durante a noite, protegido apenas pela lona da barraca.

Para enfrentar o desafio contava com um bom saco de dormir, roupa térmica para frio intenso, casaco, anorak, meias, gorro e luvas. Apesar de ter utilizado todas estas peças não conseguia esquentar meus pés, que permaneceram gelados boa parte da noite. Lá pelo meio da madrugada lancei mão das botinas. A situação melhorou um pouco, de modo que consegui dormir por mais algumas horas. Mas às 04:30 acordei e, como não conseguia mais continuar deitado, aproveitei para preparar o equipamento para a caminhada.

Depois de organizar a mochila fui para a cozinha, onde Alejandro, o cozinheiro, me serviu um mate de coca bem quente. Lá fora a noite seguia fechada e fria. Enquanto bebia o chá, me aproximei da vidraça para apreciar um pouco mais daquele céu estrelado. Nisto percebi as luzes que brilhavam mais abaixo, lançadas pelo acampamento vizinho ao nosso. Um pouco mais adiante, um hotel de luxo e uma pousada também davam sinal de vida. Havíamos passado por elas no dia anterior, bem como por outras instalações similares que estão surgindo ao longo da trilha, e lembrei de  uma conversa que tivera com o guia a respeito. Dizia ele que há poucos anos não havia sequer cercas por ali. Os campos eram abertos e a presença humana quase imperceptível. Tomei mais um gole de chá e pensei com meus botões que estava fazendo a trilha no momento certo, pois daqui para a frente a presença da civilização será cada vez mais forte.

Aos poucos o local foi ficando movimentado com a chegada de outros viajantes. O café foi servido, o guia passou algumas orientações sobre o percurso do dia e já era hora de por o pé na estrada novamente. Saímos às 06:10 quebrando a fina camada de gelo que se formara sobre a relva.

O acampamento base visto da trilha que leva ao Passo Salcantay

O trecho percorrido neste segundo dia é único sobre vários pontos de vista. É o mais desolado, o mais difícil devido a altitude e, sem a menor sombra de dúvida, o mais bonito de toda a trilha. Dos 70km trilhados, é desta parte que guardo as melhores recordações. Sinto falta da paz gelada do lugar, da presença das montanhas com seus picos nevados e da força bruta da natureza - que emana de cada pedra ali depositada. É uma sensação difícil de descrever, mas muito boa de sentir!

Passamos por Salcantaypampa (4.100 m) por volta das 07:53. Ali encontramos um solitário ponto de venda de suprimentos - o único que encontramos na primeira parte do dia. Apenas um bom tempo depois do almoço encontramos outro. A tienda era uma construção em estilo pirka - pedras empilhadas com um telhado de capim - e nela se podia adquirir água mineral, refrigerantes, biscoitos e outras facilidades da vida moderna. Enquanto descansávamos sentados na mureta baixa olhei em volta, me perguntando onde moraria o atendente, pois pela distância percorrida era impossível que ele viesse abrir o estabelecimento todos os dias. Como não via casas em volta perguntei ao guia que apontou em direção aos fundos da construção e disse, meio divertido:

- Ali Sr. Paulo, naquela casa.

Fixei o olhar e só então pude perceber que, de fato, havia uma casa naquela direção. Mas como também era uma construção em estilo pirka, ficava completamente camuflada na paisagem rochosa ao redor.

Fazendo pose em frente a pirka

O caminho é bem demarcado e vai subindo suavemente por alguns quilômetros até chegar em uma bifurcação. Cada caminho sobe por uma encosta, mas ambos levam ao mesmo lugar. Um é mais longo, com rampas mais suaves. Já o outro é mais curto e íngreme. Optamos pelo segundo e fomos paredão acima. Por algum tempo era possível acompanhar o trajeto das tropilhas na outra enconsta, mais favorável à passagem dos cavalos.

Só há uma direção a serguir: para cima!

Prosseguimos na marcha até chegarmos a Suyroqocha (4.480m) por volta das 10:10. Deste ponto em diante falta exatamente 1 km até a passagem Salcantay.

Na reta final o esforço é cada vez maior e os diálogos começaram a ficar mais espirituosos:

- Ânimo Sr. Paulo, diz o guia;
- Ânimo eu tenho de sobra, respondo apoiado no bastão de caminhada. E arremato: o quê me falta é fôlego!

Mais adiante, já bem próximo dos 4.600 m de altitude, novamente o guia:
- Faltam 300 metros Sr. Paulo!
- Serão os 300 metros mais longos da minha vida, penso eu enquanto levanto os olhos e tento visualizar o ponto que ele aponta no alto da montanha.

Alguns dias depois de ter retornado ao Brasil comentava com um colega sobre esta parte do trajeto e dizia a ele que para conseguir realizar a trilha era necessário um bom preparo físico e mental, pois quando o corpo pede arrego é a mente que o mantém seguindo em frente.

- Interessante, disse meu colega. Em algum momento pensastes em desistir?
- Não, respondi com firmeza. Pelo contrário, na parte mais difícil da subida pensava que não tinha chegado até ali para ficar pelo caminho!

Vencer os últimos metros foi muito difícil, foi literalmente uma subida passo a passo. Talvez por isso ao chegar fui tomado por uma forte emoção, que deixei transbordar num abraço fraterno no guia. E o fato é que, assim que atingimos o objetivo, bastou alguns momentos de descanso para renovar as energias completamente. Talvez pela adrenalina do esforço ou pela euforia da conquista, a verdade é que todo o cansaço desapareceu, sendo substituído por uma agradável sensação de bem estar.

A foto clássica dos que chegaram até aqui

Depois de tirar as fotos regulamentares para comprovar o feito para a posteridade era hora de agradecer à Pachamama e aos Apus que nos receberam naquele dia.

A oferenda


Seguindo a tradição dos antigos quéchuas, erguemos duas pequenas  apachetas, montículos de pedras de forma piramidal, como sinal de respeito e agradecimento. Foi uma cerimônia simples, na qual Christian separou seis folhas de coca perfeitas e com elas formou dois quintus (arranjo cerimonial), um para cada um de nós. Depois de uma breve oração em quéchua depositamos nossas oferendas e nossos desejos sob as pedras das apachetas e nos preparamos para seguir viagem.

Desde nossa chegada já ouvíramos três fortes estrondos vindos da parte alta da montanha. Quando íamos retomar a caminhada a neve acumulada numa das encostas veio abaixo numa espetacular avalanche, um belo espetáculo - mas para ser apreciado assim, a distância.

Para baixo todo santo ajuda


A passagem do Salcantay é o ponto culminante da trilha, em todos os sentidos. A partir daí o caminho se converte numa descida contínua até Collpapampa, que fica apenas a 2.800 m de altitude, onde estava localizado o segundo acampamento.

O caminho é também utilizado pelos arrieiros que transportam equipamentos e bagagens

O trajeto é feito numa estradinha de terra em sua maior parte coberta de pedras e com ondulações suaves, fáceis de serem vencidas. Além disso, a melhora da oxigenação traz um novo alento.

Paramos para o almoço em Huayracmachay (3.850 m) por volta das 14:20. Do acampamento base até aqui foram 10 km de um total de 19 km a serem percorridos neste segundo dia. Depois de uma rápida pausa partimos às 14:45 rumo à Collpapampa, onde chegamos ao cair da noite, lá pelas 17:50.

Aos poucos a paisagem foi mudando e a visão das montanhas desérticas deu lugar à encostas cobertas de vegetação. A temperatura ficou mais amena, por volta dos 20 ºC, sendo preciso trocar os casacos utilizados pela manhã por roupas mais leves.

A floresta

O acidente


De Huayracmachay até Collpapampa a estrada é coberta de pequenas pedras soltas que tornam a caminhada mais cansativa e propícia a escorregões. Como acabamos saindo muito tarde depois do almoço tivemos que acelerar o passo para chegarmos com luz no acampamento. Chão escorregadio e pressa formam uma combinação perigosa e não deu outra: ao pisar em falso bati com força o pé numa pedra. Como resultado, um dedão magoado que não parou de doer até chegarmos em Águas Calientes!

Dois fatos curiosos animaram esta parte do dia. O primeiro foi pouco depois do episódio do dedão: em certo ponto encontramos diversas vacas espalhadas e um enorme boi parado bem no meio da estrada. Para mim, criado no interior, nada de mais e segui em frente. Neste momento ouço o guia avisando que era para ter cuidado com o touro, pois ele podia ser bravo.

- Isso é um boi, respondi. Pode passar que ele é manso. E fui adiante.

Entretanto, alguns passos a frente, havia de fato um touro com cara de poucos amigos. Parei para avaliar a situação e nisto vem o guia, cheio de confiança, e atravessa em frente ao bicharrão, provavelmente convencido de que se tratava de outro boi manso!

A gafe


E o segundo foi uma gafe! Após caminhar por algumas horas resolvemos fazer uma parada para um lanche. Como estávamos em frente a um campo florido pensei que aquele era o lugar programado e já fui largando a mochila e sentando no chão. Nisso o guia arregalou os olhos, dizendo:

O cemitério de Rayanpata
- Aí não Sr. Paulo!

- Por que não Christian? É um lugar tão sossegado;

- Mas é um cemitério Sr. Paulo!!

Estávamos em Rayanpata, a 3.388 m de altitude, em frente a um antigo cemitério tradicional, que mais parecia um jardim. Havia flores por toda parte, as sepulturas estavam cobertas de pedras e as lápides representavam as formas dos antigos deuses quéchuas. Sem querer prejudicar o repouso dos moradores do lugar, rapidamente levantei e pedi desculpas pelo inconveniente. Partimos em silêncio, não sem antes tirar algumas fotos para registar o acontecido.

Collpapampa


Chegamos ao acampamento pouco antes do cair da noite. Estava exausto, depois de uma noite mal dormida e um longo dia que começara muito cedo. Além disso, a dor no pé machucado não ajudava muito. Talvez por isso as primeiras impressões que tive do lugar não foram as melhores. Achei os banheiro sujos e mal conservados: o vaso sanitário não tinha acento, a porta estava quebrada e, embora houvesse energia nas demais dependências, não havia luz na área da torneira onde pretendia me lavar antes da janta. Pelo que pude perceber o restante das instalações eram simples, mas bem ajeitadas.

O acampamento do segundo dia

A boa notícia é que se podia tomar um banho quente por S/ 10,00. A má é que não havia vidros nas janelas do banheiro e a corrente de ar que vinha de fora gelava até a alma!

De volta à barraca tratei do dedo machucado e fiz um curativo reforçado para aguentar o tranco no dia seguinte. Mas isto já é outra história.

(continua no próximo post: Trilha Salcantay 3º dia - Vamos a La Playa)

Este post é uma continuação de Trilha Salcantay - 1º dia - dormindo aos pés da montanha

Veja os álbuns com as fotos de cada dia de trilha em nossa página no Facebook:
Trilha Salkantay - 1º dia de Mollepata a Soraypampa;
Trilha Salkantay - 2º dia de Soraypampa a Collpapampa;
Trilha Salkantay - 3º dia de Collpapampa a Santa Teresa;
Trilha Salkantay - 4º dia - Tirolesa e caminhada desde a hidrelétrica até Águas Calientes;
Trilha Salkantay - 5º dia - Visita à Machu Picchu.

Seguindo o modelo da viagem anterior, quando realizamos a Trilha Inca, iremos alternando entre fotos e relatos de modo a transmitir o mais fielmente possível as emoções desta jornada.

Acompanhe nossas publicações no Instagram através da hashtag #gsmasalcantay.

domingo, 26 de junho de 2016

Trilha Salcantay - 1º dia - dormindo aos pés da montanha - Soraypampa - Peru

Para os quéchuas, montanhas nevadas como Salcantay e Humantay eram consideradas entes vivos e divinos, dotados de poder sobre o ciclo da vida nas regiões sob sua influência. Por isso eram designadas cerimonialmente como Apus (Senhora) e a elas se prestavam homenagens e oferendas. E talvez, justamente por isso, este seja o local por onde se deva iniciar o caminho de quatro dias que conduz à Machu Picchu.

Nevado Humantay


Apus


Apu Salcantay é considerada a segunda montanha mais alta do Peru e é o ápice da Cordilheira de Vilcabamba, a qual pertence. Atinge 6.271m de altitude máxima e permanece coberta de neve o ano todo, sendo comum a observação de avalanches em suas encostas. Seu nome em quéchua significa Selvagem e se justifica por sua topografia íngreme e de difícil escalada. Em suas escarpas repousam os restos de vários alpinistas que intentaram desafiá-la e falharam. Tem como vizinho o Apu Humantay (Cabeça, em quéchua) e com ele forma o Abra Salcantay (passagem), à 4.650m acima do nível do mar.

Esta rota era muito utilizada nos tempos do Império Inca, como atestam algumas construções remanescentes ao longo da estrada e na própria montanha.  A bem da verdade a Trilha Salcantay foi criada como sendo um caminho alternativo a já saturada Trilha Inca Clássica e procura reproduzir o que seria uma jornada rumo à Machu Picchu a pé. Se constitui num atrativo turístico de grande apelo para os amantes da natureza e do turismo de aventura e é fruto do esforço da iniciativa privada e dos órgãos responsáveis pelo setor do turismo no Peru para atrair investimentos e ajudar a desenvolver esta parte do País.

Um convite à aventura
Seu traçado permite ao aventureiro percorrer diferentes paisagens que vão dos montes nevados da Cordilheira de Vilcabamba (nos Andes Peruanos) à floresta fechada no entorno de Machu Picchu, passando por terras áridas, caminhos de pedra, vales férteis e vilarejos típicos. É algo que exige bom preparo físico e mental, bem como equipamentos adequados, mas que sem dúvida deve constar na agenda daqueles que amam a natureza e a aventura.

Nesta série de posts estaremos relatando o dia a dia desta viagem de quatro dias, partindo de Cusco e chegando à Águas Calientes. Além de informações úteis para aqueles que desejam viver esta aventura estaremos trazendo impressões pessoais e imagens que, esperamos, possam contribuir para uma melhor compreensão do significado desta jornada. Vamos ao relato:

De Cusco a Mollepata


São 05:25 da manhã e a portaria do hotel avisa que o pessoal da agência responsável pela trilha me aguarda na recepção para dar início ao deslocamento até Mollepata.

É cedo, mas a movimentação começou bem antes, por volta das 03:30. Sempre que venho à Cusco durmo bem, mas acordo de madrugada e não consigo mais conciliar o sono. Desta vez até foi bom, pois com isso tive tempo de sobra para tomar as providências de última hora - como colocar as malas no depósito do hotel e enviar uma última mensagem para a família. A próxima, só quatro dias depois, ao chegar em Águas Calientes!

Na calçada sou apresentado a Alejandro, o cozinheiro, e Christian, o guia. Embarcamos na van, que parte rápida e logo deixa a paisagem urbana para trás. É junho, céu limpo e pela janela vejo os campos cobertos de geada. Ato contínuo lembro das madrugadas no interior do Rio Grande do Sul, onde cresci, e me arrepio só de imaginar o frio que deve estar fazendo por aquelas cercanias. Será que o casaco que está na mochila será o suficiente?

Chegamos na praça central de Mollepata por volta das 07:30, dentro do tempo previsto. Christian me chama para irmos comer alguma coisa no Café Don Júlio, que fica do outro lado da rua, no andar de cima de uma velha casa. O estado precário da escada de madeira que utilizamos para subir anuncia o quê esperar do estabelecimento. Segundo o guia, este é o ponto de encontro preferido dos treckers por ser o mais "apresentável" da cidade!!

Café Don Julio, no centro de Mollepata

Solicitei o Café Americano, o mais completo, que saiu por S/. 20,00 (na época, 01 Real equivalia a aproximadamente 0,86 Soles). O curioso é que trouxeram uma jarrinha com café frio. Por algum tempo fiquei olhando sem entender, até que chegou o restante da refeição e o Señor Júlio - deve ter notado minha cara de dúvida - me explicou que aquele café era para ser misturado à água quente da garrafa térmica que ele trazia naquele momento. Ah bom!! Se é assim, sim.

Não há muito o quê ver ou fazer em Mollepata e, tendo concluído o desjejum, decidimos seguir para o ponto inicial da trilha. Após uma hora sacolejante por uma estrada de chão batido avistamos os grupos de arrieiros com seus cavalos. Aqui nos reunimos com o quarto membro, do grupo, José, responsável pela condução de um cavalo e de uma mula utilizados para transportar nossas bagagens e equipamentos durante os quatro dias de caminhada.

O primeiro passo


Contrariando os prognósticos iniciais a temperatura estava bastante agradável e o sol a pleno vapor. Enquanto a equipe ultimava os preparativos aproveitei para aplicar uma boa camada de protetor solar, revisar o conteúdo da mochila e, claro, tirar algumas fotos. Ao longe o monte Humantay se destacava na paisagem, parecendo querer indicar o caminho a ser seguido. Neste ponto estávamos a uma altitude de 2.900 m.

Toda jornada começa com um primeiro passo e o nosso foi  às 09:09 em ponto! Partimos para uma marcha de aproximadamente 10 km até Soraypampa (3.950 m), onde está localizado o acampamento base há poucos quilômetros do Salcantay. No início enfrentamos um aclive acentuado, cuja dificuldade em vencê-lo reside mais na falta de oxigênio devido a altitude do que ao aclive em si. Posteriormente o caminho é mais plano, com ondulações menos acentuadas e fáceis de ultrapassar.

Trilha Salcantay, com o nevado Humantay ao fundo.

Durante boa parte do tempo acompanhamos o curso de uma calha por onde escoava a água oriunda das montanhas e cujo destino era a irrigação das plantações do vale que se estendia abaixo de nossa posição. Em parte a origem desta água está ligada ao degelo da neve que se acumula nos pontos mais elevados, mas também se deve à condensação da umidade nas encostas rochosas graças a presença de um líquen que aí se desenvolve. É interessante lembrar que o conceito de divindade atribuído às montanhas pelos quéchuas tem raízes neste fenômeno natural, uma vez que a água era, e continua sendo, essencial para a manutenção da vida e as montanhas eram fontes geradoras e inesgotáveis deste líquido tão precioso.

Nesta etapa a paisagem é composta basicamente por montanhas, algumas com picos nevados, e o caminho é muito tranquilo. Às 13:15 atingimos o acampamento base em Soraypampa e fomos almoçar.

A laguna


Conforme havia combinado com Christian, às 15:00 saímos para uma caminhada até a laguna formada pelo degelo do Humantay. O percurso consistia em subir por uma encosta de aproximadamente três quilômetros, mas após uma hora de caminhada cheguei a conclusão que meu preparo físico não estava para tanto. Apesar de não sentir os efeitos do soroche (mal das alturas), as subidas eram particularmente penosas - principalmente após ultrapassar os 4.000m de altitude. Por isso, decidi sentar na relva e avisei ao guia que iria ficar por ali mesmo, descansando e contemplando a paisagem.

A vista da encosta
Christian ainda insistiu um pouco, argumentando que faltava apenas um quilômetro. Virei a cabeça na direção indicada por ele e vi uma escarpa rochosa com pessoas minúsculas subindo entre as pedras. O entardecer estava magnífico, o silêncio era quase total. Se forçasse a marcha conseguiria chegar à laguna para ficar alguns momentos e depois descer novamente. A julgar pelos grupos que passavam por nós, lá em cima devia estar apinhado de gente. Ponderei que preferia ficar por ali mesmo, sentindo as vibrações de Pachamama e vivendo o momento.

A laguna é certamente linda e vale a pena ser visitada, entretanto tenho certeza que tomei a decisão certa. Christian e eu conversamos por um bom tempo, tirei belas fotos e, ao descer, me sentia completamente renovado.

Retornamos ao acampamento por volta das 17:30, onde nos aguardavam para el té da tarde, uma refeição ligeira composta por café (solúvel), chocolate, chás, biscoito e pipoca!!

Frio de rachar


O cair da noite trouxe consigo um frio intenso e uma escuridão que há tempos não via. Em Soraypampa não há abastecimento regular de energia, por isso apenas algumas áreas de uso comum do acampamento contam com iluminação fornecida por um gerador - diga-se de passagem que os banheiros não contam com este luxo.

Também não há muito o quê fazer por ali. Assim, depois de jantar e acertar os detalhes da caminhada do dia seguinte, resolvi me recolher a minha carpa (barraca) e descansar.

A carpa (barraca) no acampamento base de Soraypampa

Acostumado às noites sem estrelas do Rio de Janeiro confesso que foi com um misto de surpresa e nostalgia que, ao sair do abrigo onde estávamos,  avistei a via-láctea brilhando no céu. Por algum tempo esqueci o cansaço, a altitude, a falta de oxigênio e até mesmo do lugar aonde estava. A visão daquele céu tão brilhante me trouxe a lembrança da infância no interior gaúcho, quando tudo era simples e a natureza estava assim como naquele instante, ao alcance da mão. Aos poucos o ar gelado me trouxe de volta à realidade e decidi dar por encerrado o dia.

Cai a tarde em Soraypampa

Estendi o saco de dormir e vesti a roupa térmica comprada especialmente para a ocasião. Mal sabia eu que passar aquela noite ali seria uma aventura a parte!

(continua no próximo post: Trilha Salcantay - 2º dia - através da montanha)

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Trilha Salkantay - 1º dia de Mollepata a Soraypampa;
Trilha Salkantay - 2º dia de Soraypampa a Collpapampa;
Trilha Salkantay - 3º dia de Collpapampa a Santa Teresa;
Trilha Salkantay - 4º dia - Tirolesa e caminhada desde a hidrelétrica até Águas Calientes;
Trilha Salkantay - 5º dia - Visita à Machu Picchu.

Seguindo o modelo da viagem anterior, quando realizamos a Trilha Inca, iremos alternando entre fotos e relatos de modo a transmitir o mais fielmente possível as emoções desta jornada.

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sábado, 18 de junho de 2016

Trilha Salkantay, o caminho da aventura - Salkantay, Peru




Já estamos de volta ao Brasil, com algumas bolhas nos pés, muitas histórias pra contar e uma tremenda vontade de retornar e começar tudo de novo!! Nesta segunda viagem ao Peru não faltaram surpresas e aventuras. Foram 10 dias maravilhosos, de intensa vivência com aquele povo afetuoso e cordial, aprendendo sobre o modo de vida e a cultura herdada dos antigos habitantes do império inca: os quéchuas.

Ainda vai levar um tempo para desempacotar as bagagens e colocar tudo em ordem. Enquanto isso iremos contando como foi dormir em uma barraca sob -10 ºC, caminhar por quatro dias entre montanhas, florestas e vilarejos, bem como ter a oportunidade de transformar em imagens pequenos instantes maravilhosos que retratam como foi toda esta experiência.

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Trilha Salkantay - 1º dia de Mollepata a Soraypampa;
Trilha Salkantay - 2º dia de Soraypampa a Collpapampa;
Trilha Salkantay - 3º dia de Collpapampa a Santa Teresa;
Trilha Salkantay - 4º dia - Tirolesa e caminhada desde a hidrelétrica até Águas Calientes;
Trilha Salkantay - 5º dia - Visita à Machu Picchu.

Seguindo o modelo da viagem anterior, quando realizamos a Trilha Inca, iremos alternando entre fotos e relatos de modo a transmitir o mais fielmente possível as emoções desta jornada.

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