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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Sinhozinho e a maldição da cobra grande - Bonito - MS

Todo lugar tem suas lendas, suas histórias secretas ou pouco conhecidas. Sabendo disso, sempre que possível, pedimos aos moradores de cada lugar que visitamos que nos contem algum causo - de preferência fantástico! - típico da região. Algo que traduza um pouco do imaginário da localidade.

Em Bonito é claro que não podia ser diferente. Depois de jogar alguma conversa fora com o pessoal do hotel ficamos sabendo pela Thayná, a atendente da agência de turismo que fica no saguão, da existência de um mito que assombra a cidade desde a década de 40: a maldição da cobra do Sinhozinho.

Claro que decidimos investigar o caso pesquisando um pouco mais e para isso fomos em busca de uma capela dedicada a sua memória, localizada na zona rural do município. De posse de um mapa rudimentar e das indicações da Thayná, saímos a levantar poeira pelas estradas rurais de Bonito.

Senta que lá vem a história

Pelo que pudemos apurar em entrevistas com alguns moradores, além do que foi possível encontrar na web, concluímos que Sinhozinho era um homem misterioso - tido como santo - que realizava curas pela região lá pelos idos da década de 40 do século passado.

Sua aparência chamava a atenção por ser muito diferente dos habitantes locais. Tinha pele clara, olhos azuis, barba e longos cabelos loiros. Segundo alguns, ele provavelmente teria vindo do sul do Brasil, o que explicaria sua aparência. Além disso, vestia um manto que cobria seu braço esquerdo, o qual permaneceu sempre oculto por razões desconhecidas.


Banner com representação do Sinhozinho e sua cruz

 

Estandartes utilizados em procissões

Sinhozinho não falava. Para se expressar utilizava gestos, frequentemente apontando para o Céu. Sua alimentação era basicamente frutas, legumes e verduras que colhia junto à natureza, uma vez que não aceitava donativos. Também fazia largo uso de mel, que sempre trazia consigo em uma cabaça. Dizem que possuía o dom da cura, utilizando para isso nada mais que água e cinzas. 

Ele também tinha por hábito erguer cruzes de madeira por onde passava, sendo que três dessas cruzes acabaram por possuir um significado muito especial.

Aos poucos essa figura marcante foi conquistando a simpatia do povo simples de Bonito e chamando a atenção dos poderosos locais, que passaram a considerá-lo uma ameaça.

Para resolver o problema, as autoridades resolveram prender Sinhozinho e se livrar dele em definitivo. Foi então que a polícia o capturou e levou num carro de bois, após espanca-lo. A partir desse ponto da história as versões divergem um pouco. Alguns dizem que ele foi assassinado e esquartejado, enquanto outros preferem acreditar que ele simplesmente foi expulso e nunca mais voltou.

Seja como for, há um ponto em que todos concordam: reza a lenda que antes de sumir (ou de sumirem com ele), Sinhozinho teria aprisionado uma enorme cobra numa pedra, dentro de uma montanha - possivelmente uma sucuri, já que elas são comuns nos rios da região - e lançado  uma terrível maldição: quando a última de três cruzes por ele erguidas cair, essa enorme cobra se libertará de seu cativeiro e sairá da caverna para destruir Bonito e devorar seus habitantes.

Alguns interpretam essa profecia como um alerta contra a ganância que destrói o meio-ambiente em busca de lucro, mas para a maioria trata-se de uma espécie de vingança contra a injustiça contra ele cometida.


Capela do Sinhozinho

Altar no interior da capela


A medida extrema empregada pelas autoridades na verdade teve um efeito contrário ao fazer nascer a lenda que vive até hoje nos corações e mentes dos moradores de Bonito. 

Prova disso é que no interior de uma fazenda foi erigida uma capela muito simples, dedicada à Nossa Senhora de Aparecida, mas conhecida por todos como a Capela Do Sinhozinho. Todo ano, no dia 12 de Outubro, ocorre uma grande peregrinação de fiéis que vem à capela agradecer e pedir graças a essa figura que permanece em silêncio, mas secretamente vela pelos desvalidos de Bonito.

A fama desse homem singular é tamanha que extrapola as fronteiras brasileiras. Em 2016, o fotógrafo taiwanês Eric Cheng veio ao Brasil para gravar um episódio da série Tales By Light sobre a sucuri-verde no rio Formoso, em Bonito. Durante as filmagens, ele ficou sabendo da história e decidiu incluí-la no documentário, levando ao mundo a Lenda do Sinhozinho. 


A última cruz ainda está de pé. Mas até quando?

É interessante salientar que as pessoas com quem falamos disseram não levar a sério a ameaça da tal  cobra, mesmo sabendo que já caíram duas das três cruzes. Entretanto ... Quando chegamos na Capela constatamos que a cruz remanescente encontra-se escorada e protegida contra possíveis acidentes que a deitem por terra. Pelo sim, pelo não é melhor não arriscar.


Como Chegar

  • Saindo de Bonito pela rua 29 de Maio, pegar a MS 345 rumo ao Distrito Águas de Miranda;
  • Após a segunda ponte, dobrar à esquerda (é logo em seguida);
  • Dobrar à direita no cemitério (é preciso abrir uma porteira);
  • 3 porteiras depois chega-se na capela, que fica à direita, dentro de um cercado;
  • A capela é extremamente simples e dedicada à N. S. de Aparecida;
  • Saímos do hotel às 09:00 e voltamos às 11:30.


Fontes Consultadas


Tales by light. Netflix. https://www.netflix.com/br/title/80133187. Acesso em 03/nov./2020.

Sinhozinho. Portal Bonito.  http://www.portalbonito.com.br/cultura/folclore/sinhozinho . Acesso em 28/out./2020.

Sinhozinho, a lenda que explica bonito. Bonito incomparável. https://bonito-in.com/2020/08/01/sinhozinho-a-lenda-que-explica-bonito/. Acesso em 03/nov.2020.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Cadê meu kit?! Mais um causo de viagem - Cavalcante - GO

Te aprochega vivente! Enquanto essa tal de pandemia não se aquieta, vou te contar mais um causo de viagem desse gaúcho que mora no Rio e resolveu gastar sola na Chapada dos Veadeiros lá pelos idos de 2018.

Antes de começar a história, esclareço que perrengue só é ruim na hora em que acontece. Na verdade eles são o tempero que dá sabor à aventura. São deles que nos recordamos - e rimos - nas conversas entre amigos e são eles que mantém viva a memória dos personagens envolvidos. Não é mesmo?

E por fim, preciso informar aos que não me conhecem que ando sempre com um kit de sobrevivência na mochila e que o mesmo não é fraco não! Já salvou a mim e meus companheiros de muita enroscada, tanto em trilhas quanto no asfalto. Enfim, vamos aos fatos.

O causo da Cachoeira Rei do Prata

Os detalhes dessa trilha - verdadeiramente sensacional - estão disponíveis no artigo Trilha da Cachoeira Rei do Prata, aqui mesmo no blog, que contém informações importantes para quem deseja se aventurar por aquelas bandas. Agora o foco é o que aconteceu depois de termos realizado a trilha.

Naquele dia saímos bem cedo da pousada para percorrer um trecho de aproximadamente 60 km em estrada de chão batido, que nos levou ao ponto inicial da caminhada. Quem costuma viajar pelo interior sabe que essas picadas cobertas de costeletas acabam com qualquer veículo, por mais forte que seja, e o nosso já estava pra lá de Bagdá. 

A estrada e os veículos que protagonizaram esse causo
Os protagonistas desse causo.

Na ida foi tudo bem. Depois de aproveitarmos o dia em meio a natureza fantástica do lugar foi chegado o momento de retornar aos carros, que nos levariam a um restaurante para encerrarmos a noite.

Chegamos no estacionamento por volta das 18:30. Como eu estava na turma da frente fui o primeiro a chegar e depositar minha mochila no porta malas do carro. E, assim como eu, os demais membros da expedição foram chegando e colocando suas mochilas sobre a minha.

Foi aí que se deu a origem desse causo ...

Grupo completo, carga carregada, todos acomodados em seus respectivos assentos, hora de partir. Haviam dois carros e o primeiro saiu lépido e fagueiro. Sentado ao lado do motorista vi quando ele tentou dar a partida repetidas vezes sem sucesso. Fiquei na minha, imaginando que fosse manha de carro velho. Ledo engano! Lá pelas tantas o rapaz puxou o rádio e tentou contato com a primeira viatura:

- Fulano, na escuta? Pane elétrica no carro. Solicito ajuda.

- ...

E nada. Silêncio absoluto. O outro veículo já estava fora de alcance devido a topografia acidentada da região que bloqueava o sinal de rádio.

Aí teve início um princípio de confusão com todos descendo do carro, dando palpites, querendo ajudar e - essa é que era a verdade, loucos para saírem daquele fim de mundo.

- Fulano, me vê uma chave de fenda - ouvi o motorista dizer ao guia.

- Tá pedindo pra mim? respondeu ele e emendou: não tem no carro?

Na verdade tinha. No meu kit de emergência. Soterrado por não sei quantas mochilas e com o porta-malas trancado. 

E não era só isso. A noite começou a cair e com ela veio o frio. Era junho e lá é clima de deserto. Calor durante o dia e baixas temperaturas a noite.

Em resumo, sentíamos uma mistura de frio, fome, cansaço e frustração por não conseguir fazer aquele maldito motor funcionar.

E no meu caso particular, a frustração era dupla porque tudo que eu precisava naquele momento estava inacessível.

Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, chegou o primeiro carro de volta, vazio. O responsável pela excursão havia estranhado a demora e o mandara de volta adivinhando algum perrengue no caminho.

Após algumas várias tentativas, finalmente conseguiram fazer o carro pegar na base da chupeta. Por pouco não esgotaram a bateria do primeiro carro, nos condenando, talvez, a passar a noite ali.

Resumo da história: chegamos ao restaurante por volta das 21:00 horas, varados de fome! E foi assim que eu aprendi a não me separar da minha mochila sob hipótese alguma. Pelo menos também foi assim que eu pude apreciar o estrelado céu noturno do Cerrado. Acreditem, é uma visão memorável e inesquecível.

Para saber mais sobre segurança na trilha leia o artigo Gastando sola com segurança - guia básico de sobrevivência para iniciantes.

Sobre o kit

O conteúdo do kit varia em função de vários fatores, tais como o local da trilha, estação do ano, tempo de duração da empreitada, infraestrutura disponível no destino, entre outros. Entretanto, há um pequeno grupo de itens que não podem faltar e que já provaram sua utilidade em muitas ocasiões - que teriam sido bem piores se eles não estivessem comigo naquele momento.


Kit básico de sobrevivência
Núcleo duro do meu kit de sobrevivência.


A base do kit é a seguinte:
  • hidratação: cantil e purificador de água;
  • iluminação: lanterna de cabeça e de facho;
  • fogo: isqueiro e iscas para acelerar a combustão;
  • orientação: bússola;
  • cutelaria: canivete de resgate;
  • ferramentas: alicate multifuncional;
  • cordame: dois rolos com 6 m de paracord e uma pulseira do mesmo material com bússola e pederneira;
  • fixação: dois prendedores.
Além desses itens, costumo levar um kit de primeiros socorros, poncho descartável, rações de emergência e mais algumas cositas que podem ser úteis.

E antes que alguém pergunte:
  • isqueiro dá de dez a zero em pederneira, não pesa e ocupa pouquíssimo espaço. Na hora do aperto é fogo rápido e garantido;
  • porque prendedores? Pois é. Essa foi uma das coisas que a experiência me ensinou. São um recurso valioso no meio do nada. Servem até pra segurar a roupa no varal. 
Seja como for, monte o seu conjunto e não saia de casa sem ele. O tempo e os perrengues vão se encarregar de mostrar o que é essencial e o que é acessório em caso de necessidade!!




segunda-feira, 22 de junho de 2020

Causos de viagem - perdido em Curitiba - PR

Enquanto a pandemia não deixa a gente sair de casa, o jeito é ir revivendo antigas histórias de viagem para não perder o jeito e não deixar cair no esquecimento - afinal são tantas aventuras que lá pelas tantas o cérebro se confunde ...

Essa aconteceu num passado distante, quando eu trabalhava numa empresa de automação de acervos bibliográficos (sim, isso existe) e viajava pelo Brasil demonstrando o produto, dando cursos, fazendo manutenção e suporte, essas coisas típicas daquela profissão.

Nesta ocasião a empresa onde trabalhava, agendou uma série de visitas que começava na Bahia e ia descendo até chegar em Curitiba, passando por umas três ou quatro outras cidades no meio do caminho. Algumas visitas eram rápidas, outras levavam alguns dias, de modo que eu trocava de hotel com relativa frequência. E foi aí que se deu o problema.

Quando cheguei em Curitiba estava exausto e faminto. Fui direto ao hotel e, lá chegando, fui informado que meu quarto ainda não estava arrumado. O atendente perguntou se eu não preferia dar uma volta - era domingo - em vez de ficar esperando no saguão. Aceitei a ideia e fui direto para a Boca Maldita em busca de um mata-fome qualquer. Entretanto ...

Eis a Boca Maldita

Eu havia passado vários dias na cidade anterior e, chegando no aeroporto, fora direto para o hotel de forma automática - movido pelo hábito. Só  na hora de voltar é que me apercebi que não lembrava o nome do hotel atual, apenas o da semana anterior!!

Fiquei zigue-zagueando pelas calçadas, olhando vitrines sem enxergar, até que uma vaga sugestão de nome se formou em minha mente. De posse desse vislumbre fui até um taxista e larguei direto:

- o senhor sabe se existe um hotel chamado ... aqui em Curitiba?
- com esse nome não, mas tem um parecido - respondeu ele;
- é pra lá que a gente vai então - disse eu.

Claro que no caminho expliquei ao motorista o quê havia acontecido. Ele achou muita graça e disse que eu ficasse tranquilo. Caso esse não fosse o hotel certo, ele conhecia praticamente todos os hotéis da cidade e iríamos de um em um até encontrar!

Felizmente acertamos na primeira. Confesso que suspirei aliviado e, desde então, sempre que me hospedo onde quer que seja, pego um cartãozinho com o nome e endereço do local e coloco na carteira.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A moça, o cuy e o turista, um causo em Cartagena - Colômbia

Colorida e misteriosa, Cartagena reserva muitas surpresas aos seus visitantes

Estamos de volta da ensolarada e colorida Cartagena de Índias, onde passamos momentos maravilhosos e pudemos desfrutar das belezas da terra, bem como da hospitalidade dos cartageneses.

Essa foi uma viagem um pouco diferente, onde não faltaram ação, emoção e reviravoltas surpreendentes que serão oportunamente contadas, lógico! Entretanto, para abrir os trabalhos vou contar uma estória que parece mais uma anedota, mas que aconteceu e da qual tenho até testemunhas. Vamos aos fatos:

A moça e o cuy


No dia em que chegamos a Cartagena, após uma longa noite apertados na classe turística, largamos nossas coisas no hotel e fomos esticar as pernas, percorrendo os arredores em busca de um primeiro contato com os habitantes locais. Depois de caminhar um bom pedaço chegamos à famosa Plaza de Los Coches, aquela onde está localizado um dos cartões postais da cidade, a famosa Torre do Relógio.

Nessa praça, do lado oposto ao do relógio, há um antigo prédio com arcos onde se encontram alguns restaurantes, sendo que um deles é especializado em comida peruana. Como de hábito em diversos lugares, mas particularmente verdadeiro em Cartagena, há sempre uma pessoa na porta do estabelecimento convidando os passantes a entrar - em bom português, alguém que fica catando clientes para a casa. Nesse caso, quem estava de prontidão era uma jovem com não mais de vinte anos, paramentada com uma roupa típica de alguma cultura ainda não identificada.

Também é preciso dizer que tive o privilégio de conhecer bem o Peru, em mais de uma ocasião, e que sou fã incondicional da gastronomia peruana. Por isso fui ter uma palavra com a mocinha para saber detalhes do cardápio. Muito atenciosa ela ia recitando seu texto decorado quando a interrompi, movido pela lembrança de um prato que havia provado em terras peruanas:

- vocês servem cuy?

A interrupção aturdiu um pouco a menina, que ficou sem saber o que responder. Culpa minha que atrapalhei a programação padrão do discurso dela, tadinha. Rapidamente se recompôs e disse que iria lá dentro perguntar se o restaurante servia o tal do cuy.

Num pulo estava de volta, o rosto vermelho, com uma expressão mista de nojo e horror:

- Cuy é um rato, não servimos isso aqui. Esse é um restaurante de comida peruana!

A bem da verdade, cuy é um porquinho da índia, sendo uma valiosa fonte de proteína desde o tempo dos Incas!!

- Senhorita, disse assim que ela se calou, o cuy é um dos principais pratos da gastronomia peruana. Não entendo porque não o servem aqui.

Depois dessa achei que seria melhor continuar em frente. Ao fazer um rápido cumprimento de despedida percebi que um dos atendentes tinha vindo junto com ela e demonstrava muito animação. Desconfio que alguém pregou uma peça na pobrezinha.

Seguimos nosso caminho e acabamos por descobrir um prato local nada típico, mas muito original e saboroso: o burguerpizza. Mas isto já é uma outra estória ...

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Um susto no Km 104! - Machu Picchu - Peru

Em abril de 2014 realizei um velho sonho de infância há muito adiado: conhecer Machu Picchu. E como não podia ser diferente, decidi fazer isso no melhor estilo gastadores de sola, ou seja, através da famosa Trilha Inca.

Uma vez decidido o destino e a forma de atingi-lo começaram os preparativos para a empreitada, com a contratação de uma operadora responsável pelo suporte e infraestrutura, escolha de equipamentos, corridas para aumentar o condicionamento físico e muita pesquisa na internet para saber o quê iria encontrar pelo caminho. Havia optado por fazer a Trilha Inca Curta, que é percorrida em apenas um dia, e lembro de achar estranho que, ao analisar os relatos sobre a trilha, todos se referiam ao ponto de partida como sendo o km 104 - nunca uma estação ou ponto de controle. Apenas aquele enigmático marco cravado na ferrovia.

Finalmente chegou o dia da viagem e lá fui eu cheio de expectativas. Depois de três dias de aclimatação em Cuzco devido a altitude, finalmente chegou o momento de dar início a tão desejada Trilha Inca. A operadora contratada enviou uma van que me levaria a Ollantaytambo para dali tomar o trem que segue para Águas Calientes. O motorista deu as orientações necessárias e informou que um guia estaria me aguardando na parada do trem - no quilômetro 104!  Até aí tudo certo, embarquei e curti o passeio despreocupadamente.

Na estação de Ollantaytambo, durante o embarque dos passageiros, o condutor perguntava a cada um aonde iria descer e, obviamente, disse que seria no tal quilômetro 104. A viagem seguiu sem maiores incidentes e a certa altura o trem parou em meio a uma mata fechada, literalmente no meio do nada. Havíamos chegado ao ponto de início da Trilha Inca Curta. Simplesmente não havia estação, plataforma ou qualquer tipo de estrutura. A composição parou e os que iriam percorrer a trilha desceram. Simples assim.

A ferrovia que leva a Águas Calientes segue por uma zona de mata.

Até aí tudo bem. Como vários passageiros haviam  descido comigo deduzi que era ali mesmo que tinha que estar e que bastava aguardar pelo guia, conforme o combinado.

Entretanto ... Aos poucos os grupos foram se organizando em torno de seus respectivos guias e se afastando para dar início a caminhada. Eu ali esperando e nada. Olhei em volta e comecei a ficar realmente preocupado, pois estávamos num lugar ermo. O trem partira e não havia possibilidade de retorno.

No Km 104 descem aqueles que irão fazer a Trilha Inca Curta.

Quando vi que a última leva se preparava para partir fui até o responsável pelo grupo para explicar minha situação e perguntar o quê deveria fazer. Afinal o meu guia não havia comparecido ao ponto de encontro e eu estava sozinho num lugar desconhecido. O rapaz foi muito gentil e me convidou a acompanhá-los até o Posto de Controle de Chachabamba. Segundo ele, lá eu poderia ficar aguardando e ao menos poderia contar com algum apoio dos guardas se necessário. Entretanto não poderia entrar no parque, uma vez que a presença de um guia é requisito obrigatório.

Posto de Controle de Chachabamba.

Confesso que nesse momento comecei a ficar aflito, mas felizmente o desconforto não durou muito tempo mais. Lá pelas tantas o rapaz que me orientara apontou para uma ponte que havíamos cruzado para chegar ali e disse, meio divertido:

- Creio que aquele ali é o teu guia!

Olhei para onde ele apontava a tempo de ver alguém correndo afobado, sem se preocupar com a fragilidade daquela velha ponte de madeira. De fato era ele que, após perceber que eu não estava no ponto de encontro, vinha em desabalada carreira rumo ao Posto de Controle!

Seu nome era Richard e, conforme me contou mais tarde, no dia anterior decidira dormir num povoado próximo à ferrovia e de lá ir ao meu encontro no quilômetro 104. Infelizmente, ao deixar a aldeia fora atacado e mordido na perna por um cachorro!! O estrago havia sido considerável, mas ele fora até lá, justamente para não deixar o cliente (no caso, eu) na mão.

Realizados os procedimentos de praxe para ingressar no parque fomos tratar do ferimento, que felizmente não era assim tão grave, embora inspirasse cuidados - o cachorro cravara os dentes com vontade!! Fizemos um curativo e cogitei seriamente em cancelar a trilha, pois é preciso lembrar que além do machucado havia a questão do animal estar contaminado com o vírus da raiva. Richard insistiu dizendo que estava bem. Além disso, o fato é que não havia muito o quê fazer, uma vez que onde estávamos não havia recursos. Ou seja, para consultar um médico era preciso ir até nosso destino final: Águas Calientes, passando por Machu Picchu.

Superado o susto inicial percorremos a trilha sem maiores percalços. A dificuldade, para mim, ficou por conta da altitude. Para se ter uma ideia, o Posto de Controle de Chachabamba está a uns 2.100m acima do nível do mar e Intipunku, o ponto mais alto da trilha, a 2.700m, o que significa uma caminhada de 14km de extensão com um desnível de 600m a ser vencido num ambiente de ar rarefeito. Para superar este desafio preparo físico é fundamental, mas a atitude mental não pode ser negligenciada. Com a fadiga pode vir o desânimo e se isto ocorrer será extremamente penoso concluir a jornada.

O guia Richard, refeito e pronto para seguir em frente.

Bom humor é fundamental


O susto foi grande, mas serviu para ensinar uma lição valiosa. Em momentos de apuro é fundamental manter a calma e o bom humor. Isso ajuda, e muito, a tomar decisões mais acertadas, mesmo quando as opções são limitadas.

No final daquele dia eu e Richard já havíamos estabelecido uma relação de convívio muito saudável, reforçada pela superação daquela dificuldade inicial e que dificilmente seria alcançada se eu me mostrasse irritado ou mesmo agressivo com o atraso. As vezes é fundamental saber se colocar no papel do outro para compreender melhor seus motivos.

Veja o álbum de fotos Trilha Inca Curta em nossa página no Facebook, clicando aqui.
Para saber mais sobre a Trilha Inca leia o post Trilha Inca Curta.

Enfim a pose clássica com Machu Picchu ao fundo - foto de Richard Cerón.

Blogs Participantes

Esse post integra a blogagem coletiva Perrengues de Viagem, uma iniciativa do grupo Pequenos Grandes Viajantes, do qual o GSMA faz parte !! Todo mês seus membros elegem um tema sobre o qual os participantes expõem o seu ponto de vista.

Aproveite para conhecer outras histórias sobre perrengues dos demais blogs participantes:
  1. Destinos por onde andei... - Perdida em Roma, Itália;
  2. Atravessar Fronteiras - Um perrengue de viagem que rendeu um DVD ao vivo
  3. Viajando por Aí - Cuidados em um safari: algumas regrinhas para não levar um susto
  4. Mariana Viaja - Sobre mosquitos e os perrengues que (por causa deles) já passei viajando...; 
  5. Cantinho de Ná - O passeio foi cancelado? Não insista, é a melhor decisão
  6.  Ligado em Viagem - Perrengues que já passamos em hotel e como evitá-los;
  7. Foco no Mundo - Perrengues no aeroporto: o que fazer quando algo dá errado?;
  8. Viagens Invisíveis - Nossos maiores perrengues de viagem.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Causos de viagem : a caldeirada de peixe - Varre Vento - AM

Em setembro de 2015 a equipe do GSMA retornou ao Amazonas, desta vez com o objetivo de conhecer um pouco do vasto interior da floresta amazônica. Após uma rápida passagem por Manaus embarcamos num motor (em caso de dúvida, consulte o nosso glossário manaura!) rumo a localidade de Varre Vento, distante umas quatro horas descendo o rio Amazonas. Diga-se de passagem que a época do ano não foi escolhida ao acaso, pois este é o período em que as chuvas diminuem e o nível do rio fica mais baixo.

A jornada até Varre Vento e outras peripécias que aconteceram nesta aventura serão contadas oportunamente em outras postagens. Desta vez quero apenas compartilhar uma lição que aprendi e que demonstra o quanto estamos distantes da realidade das pessoas que habitam aquela região.

Uma casa em Varre Vento


Ao chegar, fomos muito bem recebidos pelo dono da casa e sua família. Em pouco tempo estávamos à vontade e conversando como velhos conhecidos. Durante a conversa fiquei sabendo que as terras onde estávamos haviam ficado submersas até poucos dias atrás e que, portanto, ainda não havia sido providenciado uma horta. De fato a casa, apesar de ser construída no estilo palafita, ainda apresentava sinas da passagem da água e a única "plantação" que havia era um pequeno canteiro improvisado numa velha canoa cheia de terra, montada sobre um jirau, onde recém despontavam algumas folhinhas. Posteriormente verifiquei que este é um recurso comum na região como forma de manter os canteiros protegidos tanto da água quanto dos bichos domésticos que andam livremente pelo quintal.

No igarapé.

Lá pelas tantas o dono da casa veio me dizer que um dos meninos (agregado) iria sair para pescar e perguntou se eu não queria ir junto. Segundo ele, haviam muitos convidados e era preciso reforçar a despensa para alimentar o povo, uma vez que na janta seria servido uma caldeirada de peixe! Sempre fui bom de garfo e jamais rejeitei um convite para jantar, ainda mais quando o cardápio inclui este prato típico que aprendi a apreciar em diversos restaurantes das grandes cidades litorâneas. Confesso que estranhei um pouco o fato de ter que buscar o peixe na água, pois normalmente eu pescava meus peixes numa peixaria. Mas com o Amazonas em frente e um imenso igarapé nos fundos, a ideia até que fazia sentido.

A pescaria


Hora de lançar a malhadeira.

E lá fomos nós, três pescadores e um fotógrafo a deitar as malhadeiras em meio aquela paisagem fascinante (para mim, por certo) e um tanto selvagem. Na primeira puxada de rede constatei que o igarapé era habitado por piranhas, que atacaram alguns dos peixes que haviam ficado presos - ou seja - cair na água, nem pensar. Um pouco mais tarde um jacaré atacou uma das redes em busca de comida, causando enorme estardalhaço na água e um belo rombo na malha. O interessante é que o único que achava aquilo novidade era eu. Meus companheiros de pesca encaravam com serena naturalidade todos estes acontecimentos. Inclusive um deles se pôs a pescar piranhas com anzol, pois, segundo ele, "as bichinhas dão um belo ensopado". Deu trabalho e foi cansativo, mas valeu a pena. Além de uma boa quantidade de peixes consegui tirar muitas fotos, as quais vou postando de tempos em tempos no nosso perfil no Instagram (@gastandosola) sob a hashtag #varrevento.

Peixe atacado por piranha.

Piranha vermelha, muito comum na região.

Tá na mesa!


De volta à casa, hora de tratar os peixes e prepará-los para a panela. Mas antes disso, foi preciso ligar a bomba para puxar água do rio e abastecer a caixa d'água, pois água encanada é um luxo que por lá não existe.

Por fim o jantar! E lá vou eu rumo à mesa pensando numa moqueca estilo baiana, com tudo dentro. Mas a realidade é um pouco diferente e o que encontro é um caldo ralo, feito apenas com os peixes e alguns temperos. Para acompanhar, farinha e um ou outro complemento que havíamos trazido de Manaus.

Tratando os peixes para a caldeirada.

Foi aí que caiu a ficha, como se dizia no meu tempo. Estas pessoas moram no meio do nada. O posto comercial mais próximo está a duas horas de rabeta. A enchente levou tudo, é preciso plantar novamente para se ter o quê comer. Enquanto a roça não produz, resta a pesca ou a caça. Parei e olhei em volta. O pessoal animado contava histórias e se divertia, servindo-se do que havia sido posto sem a menor cerimônia. O diferente ali era eu, que só naquele momento começava a perceber a realidade a minha volta. A fome era grande. Servi uma porção generosa de peixe e farinha e comecei a comer devagar, ouvindo a história de como o menino que nos levara na pescaria tinha conseguido aquela cicatriz de mordida de jacaré na perna. Em silêncio, agradeci pela oportunidade de estar ali. Quanto a caldeirada, é preciso dizer que estava uma delícia!

Veja também estes outros posts sobre o Amazonas:




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O estranho caso da velha que explodiu - Manaus - AM

Quem viaja sempre tem história pra contar, pois o que não falta numa viagem são imprevistos, surpresas e emoção frente ao inesperado. Por vezes os relatos soam tão estranhos para quem não vivenciou aquele momento que chega a ser difícil para o ouvinte acreditar no que conta o viajante. O mesmo acontece com quem pesca, mas neste caso, de tanto exagerar no tamanho dos peixes que escaparam, o termo pescador é quase um sinônimo de mentiroso, não é mesmo?

E o que acontece quando se viaja para um lugar em que todo mundo é pescador? O diário de bordo volta com histórias a rodo, é claro!!

Senta que lá vem a história


Durante nossa estada em Manaus tivemos a oportunidade de confraternizar com grandes figuras, nascidas e criadas em meio a uma natureza exuberante, que só faz excitar a imaginação, e que nos brindaram com causos maravilhosos. De um modo geral todos tem um fundo de verdade e uma certa dose de exagero, remetendo a aspectos da sabedoria popular, lendas amazônicas e provas de coragem. Verdadeiros? Isso já é outra história ...

Entre uma prosa e outra fomos anotando as mais pitorescas, todas contadas dentro de um linguajar próprio, recheado de palavras exclusivas da região. Para facilitar o entendimento, acabamos por reunir os termos num pequeno glossário, reproduzido no final deste post.

Dentre as muitas que ouvimos recordo aquela da sucuri gigante que cava túneis por baixo da Amazônia, causando desmoronamentos na superfície. Uma sonda da Petrobrás até já localizou o bicho. Eles só não matam a cobra porque ela é tão grande que iria contaminar todo o Rio Amazonas! Gostou? Então tome outra: certa feita um caboclo entrou no rio para flechar um tambaqui parrudo. Ia pisando com cuidado no fundo barrento quando sentiu algo duro. Pensando ser um tronco, subiu, firmou a azagaia e retesou o arco. Quando ia flechar a presa, o "tronco" começou a se mexer e veio à tona um enorme jacaré com o caboclo por cima!! Dotado da agilidade que só o medo é capaz de fornecer, surfou o bichão até conseguir chegar na margem, desgostoso por ter perdido a oportunidade de pegar um peixão. Mas de todas as histórias que ouvimos nenhuma se compara a esta:

O Estranho Caso da Velha que Explodiu


Conta o povo que há muito tempo vivia lá pros lados de Varre Vento o Caboclo Chicotada. De origem incerta - alguns dizem que ele era filho de boto e outros de cobra - o certo é que era um mateiro valente, hábil no uso do tessada, versado nas artes da mandinga e capaz de enfrentar qualquer misura sem pestanejar.

Caboclo segue rio acima em seu casco.

Certa feita estava o Caboclo Chicotada em Manaus, negociando uma partida de pirarucu salgado que trouxera para vender na capital, quando soube que uma velha senhora, sua conterrânea, havia partido desta para a melhor enquanto visitava parentes na cidade.

Consternado pela notícia foi apresentar seus respeitos aos poucos familiares reunidos num pequeno velódromo. Entre os suspiros das mulheres e o murmúrio dos homens, ficou sabendo que nenhum barqueiro queria levar o corpo da defunta para ser sepultado em sua terra natal, como manda a tradição. Superticiosos ao extremo, alegavam ser mau agouro transportar um caixão - seja num imponente motor ou num modesto casco. Sabedores de sua valentia, os parentes da falecida apelaram ao Chicotada para que levasse a finada vozinha em sua canoa na viagem de volta.

Sensível aos apelos daquela pobre gente e alheio ao medo que costuma assolar aqueles que temem o sobrenatural, Chicotada não se fez de rogado e aceitou a missão. Assim, ao raiar do outro dia, um pequeno cortejo deixava o velódromo rumo a uma pequena praia no Rio Negro, onde Chicotada e outros quatro caboclos aguardavam para dar início ao transporte daquela carga inusitada.

Feitas as despedidas, lá se foram os canoeiros remando debaixo de um sol forte rumo ao Campo Santo de Varre Vento. Na Amazônia tudo é grande, principalmente as distâncias, por isso não é de estranhar que Chicotada e seus amigos levaram dois dias para alcançar o seu destino.

Como o nível do rio estava baixo devido a época do ano, ao chegarem em Varre Vento os remadores tiveram dificuldade em localizar um ponto de atracação que facilitasse o transporte do esquife. Por isso, decidiram desembarcar primeiro os remadores para procurarem o melhor caminho rumo ao Cemitério. Para evitar qualquer imprevisto, deixaram Chicotada tomando conta da canoa com a defunta e se embrenharam mata a dentro.

Cansado pelo tanto que havia remado para chegar até ali e afogueado pelo calor, o caboclo começou a sentir um aperto de fome a subir pelas entranhas. Conhecedor dos segredos da mata, não tardou a localizar um ingazeiro carregado de frutas que estendia seus ramos sobre a água. Sem perda de tempo remou mais alguns metros e começou a se fartar com aquela delícia que a mãe natureza oferecia.

Entretido em matar quem estava lhe matando, mal percebeu quando um assobio agudo cortou o silêncio que reinava no local. Lá se foi um ingá goela adentro e mais outro e outro e enfim dezenas de ingás já haviam se passado quando o assobio se fez presente, desta vez mais forte:

- Fiuuuuuuuu ...

Agora Caboclo Chicotada escutara bem escutado. A mão direita segurava mais um ingá rumo a boca, mas estava parada, suspenso o movimento no meio do caminho. Que diacho de assobio era aquele? Em toda sua vida, Chicotada nunca escutara nada igual. Bicho não era. Misura também não ...

- Fiuuuuuuuuuu ...

Desta vez o barulho foi mais alto. Chicotada levou a mão ao tessada e fez menção de levantar, mas um poderoso estrondo o fez cair na água, junto com a tampa do caixão!!

Ainda aturdido pela violência do baque, Chicotada segurou na borda do barco enquanto o banzeiro provocado pela explosão se espalhava pelo igarape. Ao sentir o pitiú que empesteava o ar compreendeu logo o que havia ocorrido. A pobre senhora passara desta para a melhor há três dias e o forte calor que haviam enfrentado na viagem devia ter apressado a decomposição. Como o caixão estava bem fechado, os gases formados durante este processo foram se acumulando até que a madeira não pode mais suportar a pressão.

O barulho foi tão forte que os companheiros voltaram correndo, a tempo de encontrar o Caboclo Chicotada tentando voltar para dentro da canoa enquanto recitava seu vasto repertório de impropérios e palavrões que fariam corar até mesmo um frade de pedra!!

Uma vez arrumada a bagunça, o cortejo seguiu rumo a última morada daquela pobre senhora que hoje é mais lembrada pelas circunstâncias de seu enterro do que pelas benfeitorias feitas em vida.

Quanto ao Caboclo Chicotada, contam que seguiu rio acima em busca do portal de acesso ao povo que vive no centro da terra. Mas isto já é uma outra história ...

Glossário Manauara


Azagaia: flecha tipo arpão com ponta de metal, muito utilizada em pescarias;
Açacu ou pau-de-açacu: árvore que exala uma resina que em contato com a pele provoca queimadura;
Banzeiro: ondas, também se diz quando as águas do rio estão agitadas;
Cambada: fieria de peixes;
Cambito: gancho de madeira utilizado para baixar o mato na hora de cortá-lo;
Canoa: barco com mais de 4 m de comprimento;
Carapanã: mosquito;
Casco: canoa pequena, sem motor;
Catraia: barco a remo;
Caxiri: pó alucinógeno;
Dim-dim: sacolé;
Ficou chibata: algo que ficou bom, ficou nota dez;
Ingau: ilha de superfície formada pela vegetação do rio;
Jato: barco de maior velocidade;
Kikao ou Quicao: hot dog, cachorro-quente;
Lancha: barco bem equipado e confortável;
Malhadeira: rede de pesca;
Mambeca: capim flutuante, utilizado como isolante para fazer fogo dentro da canoa;
Maromba: plataforma flutuante utilizada para colocar o gado durante a época da cheia
Misura: assombração;
Motor ou barco de linha: embarcação destinada ao transporte de passageiros;
Pegar o beco: ir embora;
Pegar corda: acreditar numa lorota;
Pegar menino: fazer o parto, ofício de parteira;
Picolé da massa: picolé feito com a polpa da fruta;
Pitiú: catinga, cheiro forte;
Poronga: lamparina de querosone;
Porronco: cigarro de palha;
Quicão: cachorro-quente;
Rabeta: lancha de pequeno porte com motor;
Regatão: barco que cruza o rio abastecendo os ribeirinhos, tipo um mercado flutuante;
Tambaqui: espécie de peixe muito apreciado na culinária amazônica;
Tessada: facão;
Tratar o peixe: limpar e temperar o pescado;
Velódromo: lugar onde se velam os mortos, capela mortuária;

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